Dois Pontos | O portal mais atualizado da região do CIMBAJU

Sabado, 18 de Abril de 2026
Latido de anjo

Luis Amorim

Latido de anjo

O valor da gratidão

IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
Huck chegou em nossas vidas do nada, e eu nem queria ele!
Minha esposa disse que uma amiga estaria doando um sharpei e insistiu para irmos ver o animal. Elas então combinaram um encontro e fomos até a casa para uma tarde entre amigos.
Chegando no local, não era uma casa e sim um apartamento, logo quando entramos nos deparamos com um latido rouco e bem alto, vindo da área de serviço. Lá estava, aquele cachorro gigante em um local tão apertado. O cão não parava de latir e para piorar, tinha a cara toda enrugada, um bicho carrancudo que não demonstrava nenhuma confiança na aproximação, muito pelo contrário, fazia era intimidar ao tentarmos nos aproximar dele.

Leia Também:

    O dono então resolveu soltá- lo no apartamento, eu não concordei com a ideia, até mesmo porque meu filho tinha três anos, e uma mordida daquele cachorro com certeza era ida certa para o hospital, mas o dono estava bem confiante que o Huck não avançaria.
        Assim que o cachorro saiu daquele confinamento correu desesperado pelo pequeno apartamento, trombando em tudo e em todos.
Depois parou na minha frente e começou a latir, olhei para minha esposa e balancei a cabeça negativamente.
        A dona então disse: ele fica bem agitado quando soltamos ele, deixa seu filho dar uma volta com ele lá fora que ele se acalma. Assim o fizeram, prenderam ele na correia e deram para meu filho levar.
         Ao sair do apartamento, viram que não tinha moradores na área social e falaram que o meu filho poderia soltar a coleira. Então o cachorro explorou toda área, entrou um morador pela garagem e o portão ficou totalmente aberto com acesso para rua, mas o cachorro não cruzou os batentes, chamando bastante a minha atenção.
Questionei o rapaz: ele não sai para rua?  O mesmo respondeu que não.
Mais uma vez perguntei: ele é adestrado? Novamente o rapaz respondeu: não, mas não vai para rua.
      Aquilo realmente me chamou a atenção e com pouco tempo o cachorro já tinha se familiarizado conosco.
 
A dona não podia ficar com um cachorro daquele porte naquele apartamento, por isso estava doando.
        Resolvemos levar o cachorro.
       Chegando no quintal de casa, o cachorro não sabia para onde ir, corria de um lado para o outro  pisoteando e fazendo buraco no gramado.
      Minha esposa filmou o comportamento do cão e enviou para a antiga dona e ela mesma disse: Nossa! Parece que ele está mais feliz com vocês.
       Sem eu querer, acabei assumindo a responsabilidade de cuidar do animal. Colocar a água, dar comida, limpar  a sujeira e levar para passear. Chegava do serviço e lá estava ele me esperando, e quando abria o portão automático, ele ficava parado esperando eu entrar, mesmo que passasse outro cachorro na frente dele, ele não saia de dentro do quintal.
          Sempre que levava para passear íamos em um pequeno riacho, um pouco distante da residência, lá eu ficava pescando e ele simplesmente me fazia companhia. Eu não  o deixava preso,  mas para evitar qualquer contratempo, sempre deixava ele com a correia para facilitar caso precisasse pegá-lo.
         Ali ficavamos durante horas, aquele lugar era mágico, transmitia uma tranquilidade e por isso era frequente as idas a esse local.
     Certa vez saímos no período da tarde e fomos para o riacho. Eu com  minhas tralhas de pesca e com meu fiel e inseparável companheiro.
        Tudo estava perfeito, já ia para o quinto peixe no anzol quando de repente senti uma forte pontada. A dor foi tão forte que soltei a vara e levei a mão ao peito e em fração de segundos caí e bati fortemente a cabeça numa pedra que usávamos para sentar.
Huck tentou se aproximar, mas a correia se prendeu num tronco de árvore, incansável ele tentava se aproximar e latia muito. Depois de alguns minutos a coleira rompeu ele conseguiu se soltar, Huck ficou lambendo o meu rosto e não parava de latir.
Um senhor que estava por perto estranhou o comportamento do cachorro e resolveu ver o que estava acontecendo, achando o homem caído chamou o socorro de forma imediata.
Quando me colocaram na ambulância o Hulk tentou subir, mas foi impedido pelo paramédico, que tinha bastante pressa para realizar o resgate. Rapidamente o carro saiu tocando as sirenes. Huck foi atrás correndo, mas como o veículo estava em alta velocidade, não conseguiu acompanhar e logo saiu do seu campo de visão, mas mesmo assim continuou correndo.
         Assim que cheguei ao hospital fui levado direto para a sala de cirurgia onde realizaram uma cirurgia cardíaca. Depois de uma semana internado, retornei para casa bastante debilitado. Não avistando o Hulk, perguntei para minha esposa: Cadê o cachorro?
      Ela respondeu que desde o dia do incidente ele não retornou para casa. No mesmo dia iniciamos as buscas pela vizinhança, distribuímos cartazes com a foto do cachorro e até oferecemos uma quantia em dinheiro para quem o encontrasse, mas ninguém o encontrou, passou quase um mês e passamos a acreditar que ele tinha sido atropelado quando correu atrás da ambulância.
Certo dia sonhei com ele correndo em uma grande  área verde com bastante árvore e um rio ao fundo. O lugar era tão bonito que fiquei feliz de vê-lo ali. Quando acordei lembrei do lugar que íamos pescar. Peguei uma varinha de bambú algumas minhocas do jardim e fui até o riacho para recordar os momentos que passamos ali.
Quando cheguei avistei de longe um cachorro parado no mesmo local que ficávamos, quando fui me aproximando percebi que as características do cachorro era igual a do Huck. Meu coração disparou, eu não estava acreditando que poderia ser o meu fiel amigo. Quando o cachorro percebeu que eu estava se  aproximando, virou e correu em minha direção. Era o Hulk mesmo! Ele pulou em cima de mim com tanta empolgação que me derrubou no chão, a euforia despertou no cachorro uma mistura de emoção, ele latia, choramingava, uivava, lambia, ficava correndo em minha volta,  parecia estar mesmo feliz pelo reencontro assim como eu!
       Como eu não pude saber que depois de  ter se perdido o cachorro voltou para o mesmo local, o cachorro que salvou a minha vida, ficou me esperando no lugar que mais gostávamos de ir.
         Depois de alguns anos o meu fiel companheiro partiu, deixando uma imensa saudade e a certeza que anjos  não são seres sobrenaturais com asinhas e auréola, e sim criaturas que entraram em nossas vidas para nos  fazerem felizes e nos protegerem.
Comentários:
Luis Amorim

Publicado por:

Luis Amorim

Psicólogo, escritor, palestrante e empresário, autor de diversos livros, dentre eles: " Livre Arbítrio: O poder da Consciência" e "Outras Vidas: O poder da Compreensão".

Saiba Mais

Envie sua mensagem, será um prazer falar com você ; )