Gilóceano foi mais uma vez protagonista de uma cena reprovável, ao se exaltar contra a revelação de fato suspeito de corrupção de seus asseclas. Nitidamente nervoso aos gritos tentou justificar o injustificável e ainda reprovou a atuação legítima daqueles que cobravam explicações sobre os desvios flagrados. Esse comportamento exaltado, na realidade, revelou fraquezas inconfessáveis e, sobretudo, medo ancestral que acarreta mecanismos de defesa, projeções da personalidade e insegurança por falta de propósito em uma vida autêntica.
A AMEAÇA A UM LEGADO FUNDADO EM ILUSÕES
Gilóceano teme a insignificância de seu legado em tempo breve, porque a máscara de sua atuação esconde a fraqueza de seus intentos e o vazio de sua existência, que se abrigam na raiz de seu esforço para ser reconhecido, amado, idolatrado e festejado. De fato, a aparência de equilíbrio em vídeo produzido mediante situações controladas, figurino pastel, cenografia empoderada de símbolos, microfones sem ruídos, maquiagem etc, desmonta-se à luz do sol, na poeira do chão, no confronto com a realidade nua e crua. Naquele episódio, Giló escancarou seu mecanismo de defesa onde sentimentos, impulsos e, principalmente, traços indesejados são atribuídos a outras pessoas, em vez de serem reconhecidos em si mesmo. É um processo inconsciente, onde o indivíduo evita lidar com aspectos de sua própria personalidade, a transferi-los para o exterior. Não satisfeito nessa estratégia medonha, ainda apaga registro de obras de seus antecessores ou manda inscrever seu nome em placas de inauguração em tamanho superior aos nomes de outros, sem perceber que revela o próprio ego inflado de gases.
ROLO COMPRESSOR OU ROLO DE MACARRÃO RENATA
A projeção ou a impotência de lidar com a quebra do espelho, a revelar o fim da beleza, da juventude e da vitalidade, independentemente de suas ações ou desejos, provoca o recrudescimento da força bruta contra os desafetos, tal como o desejo de ser um rolo compressor para aplacar as ameaças a dissolução de sua pessoa em praça pública, ainda mais quando a oponente tem a qualidade insuperável de uma massa caseira preparada no rolo de macarrão, servida no pomodoro e aglio, ou mesmo contar com uma saborosa massa fresca Renata ao molho bolonhesa picante. A estratégia da força, no entanto, apenas reforça o fim da capacidade de raciocinar ou a um estado de inconsciência fatal. Nesse ponto, o sentimento de ser proprietário da pequenina cidade e de poder determinar o destino de cada indivíduo ou empreendimento o encaminha para o fanatismo exacerbado, que poderá levá-lo à prisão em sua própria gaiola ou a dos apenados em semelhança com o personagem de O Triste Fim de Policarpo Quaresma.
A INSIGNIFICÂNCIA DO LOCUS PERIFÉRICO
A percepção falha de Gilóceano quanto à ineficácia de suas ambições é proporcionalmente direta à obliteração da visão quanto às características do lugar em que planta suas sementes estéreis. Confinado à bolha da claque bajuladora, ele não se dá conta de que a Terra é um pontinho insignificante no rabo extremo da Via Láctea – no limite anterior do Braço de Órion -, em uma pequena galáxia de uma estrela anã amarela denominada de Sol, cujo destino breve em termos cósmicos é a colisão com Andrômeda. Nesse choque, o pequenino planeta já nem existirá por ter sido consumido pelo Sol radialmente modificado por colapso gravitacional em anã branca. Nesse cenário apocalíptico, a obsessão de Gilóceano de ser grandioso na periferia é o escapismo de destino risível, por ignorar a impermanência natural da vida e pelo apego material ostensivo. Equiparado ao presente estágio solar na metade de seu ciclo – sequência principal -, Gilóceano também sente de forma inconsciente o fim de seu segundo ciclo terminal, a demonstrar medo em eventual punição pelos pecados cometidos. Teria ele possibilidade de se redimir a partir da libertação da órbita a que está submetido e limitado por dependência de sua bolha? Sim, se tirar a máscara do medo em ato de bravura.
A REDENÇÃO PELA LIBERDADE ABSOLUTA: a ação cura o medo
A fim de não deixar para trás apenas o vazio e o esquecimento ou a dissolução de sua existência na vastidão do cosmos, Gilócenado pode compreender o sentido da liberdade irrestrita para criar seu próprio propósito de forma autêntica, na escolha de uma vida digna, intensa, transparente, em conexão com a realidade de todos. As fraquezas inconfessáveis portadoras de mecanismos de defesa, manifestadas por comportamentos violentos, podem ser substituídas pela consciência do pertencimento ao todo, em que a individualidade faz parte do mecanismo sistêmico de tudo. Por exemplo, a perfeição do trabalho de uma abelha na confecção de um favo de mel com células hexagonais demonstra a engenharia natural ou biomimética em benefício da colmeia, ao armazenar mel, pólen e criar novas gerações de abelhas preparadas para otimizar recursos e soluções coletivas. No filme Lucy, a propósito, a protagonista adquire a condição de interagir com todos os elementos e fenômenos do universo e, ainda com o destino da impermanência – impermanent fate -, natural, reconhece sua missão individual de passar para frente todo o conhecimento adquirido. Assim, seja para uma galáxia ou para uma abelha, em essência, a vida é um processo dinâmico, ainda que às vezes haja períodos estáveis, tudo é fluxo e movimento totalmente livre. Então, nessa liberdade redentora, a ação cura o medo, ou seja, é só tirar a máscara e passar adiante o conhecimento de uma vida com significado autêntico e isento de egocentrismo.
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