Outro dia, na escola, numa sexta-feira normal do dia do brinquedo, uma aluna levou uma boneca- que eu nem sabia que ainda existia- dos anos 90. Daquelas que tremiam o olho e hoje cheiram à nostalgia. Uma outra estava com uma boneca tão realista que por alguns milésimos de segundos me pareceu...humana. Mas não, era um bebê reborn.
Quando criança eu sonhava em ter uma boneca assombrada da Eliana ou da Xuxa- sem compreender de fato que era assombrada. Seus braços e pernas eram duros e ela media quase a minha altura. Não me ocorria que ela, a boneca- objeto inanimado- não poderia virar os olhos me seguindo e julgando, principalmente à noite a não ser que algo estivesse muito errado.
Ah, mas lá vem mais uma falando sobre esse assunto! Em minha defesa, que espécie de cronista eu seria se não falasse de uma das polêmicas/doidices do momento? Tema é o que não me falta para criticar. Voltando ao dia que pensei ter visto um bebe de verdade no pátio da escola- que não é maternal- fiquei ainda mais impressionada quando fui pesquisar o valor que o boneco- que vem até com certidão de nascimento -segundo minha aluna, custava. Entre as mais incrementadas estavam as de dois mil quinhentos e noventa e nove fucking reais, valor que varia para menos ou mais. Veja bem, isso é o valor de uma mensalidade de um curso integral de odontologia ou medicina. A da minha aluna é da Shopee, ela mesma foi dizendo como eu faço quando alguém elogia uma blusinha nova. Foi R$10.00 na banca da dona Maria.
Essa semana jorraram notícias a respeito do novo fenômeno, é prefeitura que quer decretar o dia da mamãe reborn; projeto de lei para multar quem vai para a fila das UBS exigindo atendimento a seu boneco; estado que pretende decretar feriado. Estamos beirando a insanidade? Cada um chama de um jeito, fuga da realidade, delírio coletivo, surto, patologia.
E eu criticando adulto que pinta livro de ursinho.
Ao que parece, é o novo jeito de lidar com o vazio na busca de algum conforto emocional ilusório ou sei lá o que. Mas tudo bem, cada um encontra abrigo onde dá, não é mesmo? Como disse a minha xará Luana Piovani- um pouco mais crítica do que eu- “Deixa esse povo criar bebê reborn. Se essa galera procriar vai ser muito pior! Vai por mim”.
Concordam?
NOTA 1:” reborn” quer dizer renascido, como se o plástico e o vinil tivessem atravessado o útero da indústria para ganhar uma segunda chance como “vida”. O problema é que por mais bem feitos que sejam, continuam sendo bonecos. Me pergunto se seriam eles os plastificados.
NOTA 2: A indústria ganhou só entre 2023 e 2024 bilhões de dólares com essa brincadeira, os números continuam crescendo para 2025.
NOTA 3: O texto vai acabar e eu não mencionei o capitalismo, exceto agora. Será?
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