Então foi dada a largada: a revolução agora calça borracha; rolar o feed virou esporte radical. Você desce a tela e tropeça em meia dúzia de cidadãos jogando chinelo no lixo como se fosse um gesto histórico. Saudade de quando o Instagram tinha fim, acabava. Quando a timeline tinha borda, limite e algum afeto. Quando existia o depois. Por muito menos eu abandonei o Facebook — um ato de autopreservação.
Às vezes penso que seria mais honesto virar conceito. Um movimento artístico, uma ideia solta, qualquer coisa que não precise interpretar texto. Porque entender o que se lê virou um esforço exaustivo. Quase subversivo.
A boa nova da semana — fora o Corinthians ganhando mais um campeonato — foi um comercial da Havaianas. Um vídeo. Um pecado. Um erro fatal. Não durou 24 horas. Sumiu. Foi deletado como se nunca tivesse existido, o clássico milagre de natal ou melhor: digital.
A internet, esse curral sensível, foi tomada por especialistas em nada. Gente incapaz de interpretar uma frase simples, mas com pós doc. em teoria da conspiração. Faltava ali só uma coisa — esqueci o nome... pensamento crítico. Isso. Essa coisa em extinção.
Sobrevivamos aos top trends que se empilham como entulho emocional: polêmica da Havaianas, divórcio da Paolla Oliveira, indignação em tempo integral. "Haja hoje para tanto ontem", hein, querido Leminsk? O passado não passa, só viraliza.
Eu escrevo? Não escrevo.
Eu escrevo? Não escrevo.
Eu escrevo? Escrevo — porque não escrever também dá trabalho.
Aliás, em terra de desinformação quem interpreta é rei?
E em tempos de inteligências artificiais quem escreve é o que?
É curioso, quase poético, pensar que a política já nos fez brigar com amigos, parentes, vizinhos... e agora com objetos inanimados. Esta semana decretamos: odeie seus chinelos. Queime-os em praça pública. Faça stories.
Não se esqueça de detestar a Fernanda Torres!
Queria ser conceito. Não pessoa.
Pessoa interpreta, pessoa se explica, pessoa cansa.
Conceito apenas existe. Flutua. Não comenta...
Ok, Alexa. Toque a última trombeta.
Que seja o fim ou, no mínimo, um intervalo. Mas toque baixo. Já estamos cansados demais até para o apocalipse.
O que será que será?
Talvez nada.
Talvez outra histeria coletiva com prazo de validade.
Talvez só terça-feira.
E eu aqui.
Escrevendo. Quase véspera de natal.
Me recusando a ouvir Marina Sena, mas ainda rindo com o meme do 'Pantonete" e do "valeu, Natalina".
"Ideologia eu quero uma pra viver"?
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