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Sabado, 27 de Junho de 2026

Lua Souza

"Meu partido é um coração partido".

Eu escrevo? Não escrevo. Eu escrevo? Não escrevo. Eu escrevo? Escrevo — porque não escrever também dá trabalho.

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Então foi dada a largada: a revolução agora calça borracha; rolar o feed virou esporte radical. Você desce a tela e tropeça em meia dúzia de cidadãos jogando chinelo no lixo como se fosse um gesto histórico. Saudade de quando o Instagram tinha fim, acabava. Quando a timeline tinha borda, limite e algum afeto. Quando existia o depois. Por muito menos eu abandonei o Facebook — um ato de autopreservação.

Às vezes penso que seria mais honesto virar conceito. Um movimento artístico, uma ideia solta, qualquer coisa que não precise interpretar texto. Porque entender o que se lê virou um esforço exaustivo. Quase subversivo.

A boa nova da semana — fora o Corinthians ganhando mais um campeonato — foi um comercial da Havaianas. Um vídeo. Um pecado. Um erro fatal. Não durou 24 horas. Sumiu. Foi deletado como se nunca tivesse existido, o clássico milagre de natal ou melhor: digital.

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A internet, esse curral sensível, foi tomada por especialistas em nada. Gente incapaz de interpretar uma frase simples, mas com pós doc. em teoria da conspiração. Faltava ali só uma coisa — esqueci o nome... pensamento crítico. Isso. Essa coisa em extinção.

Sobrevivamos aos top trends que se empilham como entulho emocional: polêmica da Havaianas, divórcio da Paolla Oliveira, indignação em tempo integral. "Haja hoje para tanto ontem", hein, querido Leminsk? O passado não passa, só viraliza.

Eu escrevo? Não escrevo.
Eu escrevo? Não escrevo.
Eu escrevo? Escrevo — porque não escrever também dá trabalho.

Aliás, em terra de desinformação quem interpreta é rei?

E em tempos de inteligências artificiais quem escreve é o que?

É curioso, quase poético, pensar que a política já nos fez brigar com amigos, parentes, vizinhos... e agora com objetos inanimados. Esta semana decretamos: odeie seus chinelos. Queime-os em praça pública. Faça stories.

Não se esqueça de detestar a Fernanda Torres!

Queria ser conceito. Não pessoa.
Pessoa interpreta, pessoa se explica, pessoa cansa.
Conceito apenas existe. Flutua. Não comenta...

Ok, Alexa. Toque a última trombeta.
Que seja o fim ou, no mínimo, um intervalo. Mas toque baixo. Já estamos cansados demais até para o apocalipse.

O que será que será?
Talvez nada.
Talvez outra histeria coletiva com prazo de validade.
Talvez só terça-feira.

E eu aqui.
Escrevendo. Quase véspera de natal.
Me recusando a ouvir Marina Sena, mas ainda rindo com o meme do 'Pantonete" e do "valeu, Natalina".

"Ideologia eu quero uma pra viver"?

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Internet
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Lua Souza

Lua Souza, 34 anos, mãe e moradora de Franco da Rocha (SP). Poeta de nascença e professora de Língua Portuguesa, recentemente se descobriu cronista. Citação: "Eles passarão, eu passarinho"

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