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Sexta-feira, 26 de Junho de 2026
O Brasil entrou na era do cuidado

Thaís Rivera

O Brasil entrou na era do cuidado

Quem vai cuidar dos idosos no Brasil?

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Existe uma pergunta que começa a aparecer com cada vez mais frequência nos serviços de saúde no Brasil.
Ela não é feita pelo médico. Nem pelo enfermeiro.
Ela surge quando o cuidado se prolonga para além do sistema e todos percebem que o maior desafio ainda está por vir:

"Quem vai cuidar dele agora?"

Nesta semana, o Ministério da Saúde lançou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (PADI Brasil), instituído como estratégia nacional de cuidado no território e integrado à Atenção Primária à Saúde. O programa prevê o acompanhamento de idosos com limitação funcional diretamente no domicílio, por equipes multiprofissionais do SUS, com visitas regulares, plano de cuidado individualizado e articulação com a rede de serviços quando necessário. A iniciativa integra uma estratégia de cofinanciamento federal aos municípios e deve mobilizar cerca de R$ 500 milhões até 2027, voltados à ampliação da atenção domiciliar no país.

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A medida representa um avanço importante, mas também revela algo maior: o Brasil começa a reconhecer que envelhecer bem não depende apenas de bons hospitais — depende da capacidade de cuidar no território.

Durante muitos anos, o debate sobre o envelhecimento da população esteve concentrado na Previdência. Discutimos aposentadorias, tempo de contribuição e sustentabilidade fiscal. São temas relevantes, mas insuficientes.

A pergunta mais urgente ficou fora do centro do debate:

quem cuidará de quem cuidou de nós?

Ao longo da minha trajetória na gestão em saúde, vi essa cena se repetir inúmeras vezes.

O médico comunica que o paciente pode seguir o cuidado fora do ambiente hospitalar.
A família respira aliviada.
Mas o alívio dura pouco.

Logo surge a pergunta que raramente aparece registrada nos sistemas, mas que define o desfecho real do cuidado: quem estará ao lado desse idoso amanhã?

Nem sempre existe um filho disponível. Nem sempre há recursos para contratar um cuidador. Nem sempre a casa oferece condições adequadas. E, quase sempre, alguém precisa reorganizar completamente a própria vida para assumir essa responsabilidade.

Na maioria das vezes, esse alguém é uma mulher.
Uma filha.
Uma esposa.
Uma irmã.

Durante décadas, tratamos o cuidado como responsabilidade exclusivamente familiar — uma obrigação silenciosa resolvida dentro de casa. Mas o Brasil mudou. As famílias são menores, a expectativa de vida aumentou, as mulheres estão no mercado de trabalho e as doenças crônicas se tornaram mais frequentes.

O cuidado deixou de ser apenas uma questão privada. Tornou-se uma questão de política pública.

Quando um idoso não consegue manter seu cuidado em casa, o impacto não é individual. O sistema de saúde também sofre: aumentam as reinternações, cresce a demanda por urgência, elevam-se os custos e, sobretudo, perde-se qualidade de vida.

Por isso, iniciativas como o PADI Brasil são relevantes. Não porque resolvem sozinhas um problema complexo, mas porque reconhecem uma realidade já instalada: o cuidado precisa sair da invisibilidade e ser organizado como rede.

Talvez estejamos entrando na maior transformação social das próximas décadas.

Não é apenas o Brasil que está envelhecendo.
É o próprio significado do cuidado que está mudando.

Será preciso formar mais profissionais, fortalecer a atenção domiciliar, apoiar cuidadores familiares e integrar saúde e assistência social. E, sobretudo, compreender que cuidar de uma população longeva exige planejamento, investimento e responsabilidade coletiva.

A forma como um país trata suas crianças revela o futuro que deseja construir.
Mas a forma como cuida dos seus idosos revela a sociedade que escolheu ser.

O Brasil conquistou algo extraordinário: estamos vivendo mais.
Agora precisamos garantir que essa longevidade venha acompanhada de dignidade, autonomia e cuidado.

Cuidar não é apenas um gesto de afeto. É um pacto entre gerações.

O Brasil já entrou na era do cuidado.
E você, acha que nossos municípios estão prontos para isso?

Quantos deles estão, de fato, planejando o envelhecimento da população antes que ele se transforme em crise?

Thaís Rivera
Gestora em Saúde, Enfermeira, Pedagoga e estudante de Ciência Política  
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): internet
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Publicado por:

Thaís Rivera

Gestora em saúde, enfermeira e pedagoga com experiência em gestão pública. Primeira geração universitária via ProUni, especialista em políticas públicas, equidade e transformação social.

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