Dois Pontos | O portal mais atualizado da região do CIMBAJU

Segunda-feira, 20 de Abril de 2026
Como fazer de 2026 um novo ano

Yasmin Malaquias

Como fazer de 2026 um novo ano

uma receita segundo Drummond

IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Carlos Drummond de Andrade é um dos grandes nomes da poesia brasileira, formado
pelo movimento literário Modernista, que teve como uma de suas maiores expressões a
Semana de Arte Moderna de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo. Tudo que ele
escreveu atravessa uma vasta gama de assuntos e um deles é a época do Ano Novo, em que as
esperanças são renovadas e novos ciclos são iniciados – ou, pelo menos, isso é o que nosso
poeta acredita que deveria acontecer. O título desse texto é “Receita de ano novo” e o
reproduzo aqui:
Receita de ano novo
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
A principal crítica do poeta mineiro é sobre as mudanças que não fazemos na
passagem para uma nova volta ao redor do sol, que sempre envolve tantos ritos, mas nem
sempre algo efetivo. A voz poética espera que o novo ano “não [seja] apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,/ mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;” e continua, na segunda
estrofe “ não precisa/ fazer lista de boas intenções/ para arquivá-las na gaveta.”. Para ele, não
basta planejar o novo ano e seguir com os mesmos erros e acertos do ano que nos deixou – é
preciso movimentar-se em busca desse novo ano.
Na última estrofe, ele prossegue declarando para seu leitor que “Para ganhar um Ano
Novo/ que mereça este nome,/ você, meu caro, tem de merecê-lo,/ tem de fazê-lo novo, eu sei
que não é fácil,/ mas tente, experimente, consciente.”. O poeta desmonta a ilusão de que a
mudança vem de fora, por datas ou rituais, e afirma que o novo só se concretiza quando nasce
de dentro. Assim, a Receita de Ano Novo permanece atual: não como um manual de 5 ou 7
pasos, mas como um convite ético à consciência, ao movimento e à transformação cotidiana
— aquela que não faz barulho, mas altera o curso das coisas.
Encerrando esse texto, eu desejo a você, minha leitora, que 2026 seja um ano recheado
de saúde, poesia e das pequenas mudanças que nós fazemos silêncio. No fim, essas são as
mais importantes para o novo ano.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): https://www.portinari.org.br/acervo/obras/19191/retrato-de-carlos-drummond-de-andrade
Comentários:
Yasmin Malaquias

Publicado por:

Yasmin Malaquias

É estudante de Letras da FFLCH-USP e dedica-se ao estudo e à produção de literatura

Saiba Mais

Envie sua mensagem, será um prazer falar com você ; )