Teria havido um tempo em que os homens eram reles e frágeis criaturas em um mundo governado por deuses cósmicos descritos pelos antigos gregos, romanos, maias, egípcios, nórdicos, astecas, hindus, iorubás, persas e outros. Nessa submissão às leis da natureza e do sobrenatural fantástico das entidades superpoderosas, os homens eram prisioneiros de uma realidade distorcida e ilusória por obliteração da realidade ou medo do desconhecido, tal como descrito na alegoria do Mito da Caverna de Platão sobre esse tempo de sombras e escuridão.
A LUZ DO FOGO E O DESAFIO À DIVINDADE
Mas teria havido deuses que se compadeceram dessa condição escrava e, num ato de coragem e rebeldia contra a tirania divina, ensinaram aos homens o poder da luz do fogo e as qualidades necessárias para buscar o conhecimento e a autodefesa, ainda que subsistissem os paradigmas reguladores dos deuses e as exigências de sacrifícios humanos, tal como narrado na mitologia grega sobre a saga de Prometeu, que, por ter roubado o fogo do Olimpo e entregue aos homens, foi acorrentado no alto de um rochedo onde uma águia comia seu fígado, que se regenerava para sofrer diariamente essa condenação. No final do mito, Prometheus foi libertado, a deixar a lição sobre o valor da justiça e o preço da liberdade, ainda que diante de uma divindade suprema.
DO POLITEÍSMO AO MONOTEÍSMO DOS IMPERADORES DIVINOS
O fogo civilizatório libertador de Prometeu levou os homens a encontrar um deus salvador único e governante do universo, onipotente, onisciente e onipresente, absoluto e incomparável, para a vida eterna, tal como medianamente ditam o Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Bahai, Zoroatismo, Hinduismo e outras fés. Nessa realidade submetida às regras de um pai todo poderoso, os homens assumiram um código de mandamentos, para cuja obediência haveria a promessa da vida eterna no paraíso, da libertação do carma, da terra prometida, da renovação da terra onde a guerra, o ódio e a fome cessarão, e para cuja desobediência haveria a pena de castigo eterno no inferno, tal como descrito no Inferno de Dante. Sob o princípio dos escolhidos pela bênção divina e primado de igrejas, imperadores e reis estabeleceram civilizações sob poderes autocráticos ou de castas privilegiadas por segregação racial, militar, nobreza ou disposição hereditária, a expensas da infantilização cognitiva e consciência limitada da realidade.
PENSO, LOGO EXISTO OU NÃO EXISTO – eis a questão.
O poder absoluto dos reis divinos foi objurgado pelo movimento iluminista, que espargiu a razão científica como forma central do conhecimento, dos direitos individuais, da liberdade de expressão e das relações baseadas na consciência humana e na igualdade entre os homens perante a lei, a separar os poderes constituídos e estabelecer a primazia da liberdade econômica. Da Europa ao Império Otomano, as reformas do século das luzes confinaram a religiosidade aos templos sagrados, embora, desde então, as guerras religiosas tenham encrustado crenças conflitantes do padrão racional e do sentimento existencial de cada nação. A previdência e a providência para aquele indivíduo sem ciência de sua própria consciência restariam ancoradas na lição de Voltaire no final do personagem Candide de que é preciso cultivar nosso jardim, em confronto com a ideia inicial de que tudo acontece para o melhor dos mundos.
QUEM OUSOU MATAR DEUS? OU UM MUNDO SEM REGRAS DIVINAS
Se o homem haveria de ser entregue a sua própria sorte, o peso de sua existência em um ambiente de exigências hostis e precárias satisfações teria de assassinar a virtude de Deus. Sem proteção divina, céu ou inferno, a saga humana é puro sofrimento e vazio existencial incontestável, além da ignorância do que acontece após a breve vida terrena, ou a angustia de lutar por pedaço de terra que mal lhe serve de sepulcro. Nesse vácuo de reposta para o propósito da vida ou para a origem da existência em que nada mais é sagrado, o apelo da Alma Boa de Setsuan na Canção do Fim do Mundo, oposta à religião e à crença em entidades sobrenaturais, o Estado mata Deus, e as ideologias alcançam o pináculo dos céus mediante a promessa de amparo, igualdade e inclusão ou liberdade, riqueza e sucesso. Mais poderoso ainda, o Estado cria a própria extinção da humanidade na construção de uma realidade formatada para guerra dos mundos, em uma escalada atômica no espaço-tempo e na velocidade da luz.
HOMEM SUPER CONECTADO E O APOCALIPSE QUÂNTICO
Sem o poder divino, restaria ao homem se tornar responsável seu próprio sistema moral e de justiça, porém o Estado o enquadrou nas regras ideológicas para submetê-lo à percepção de um mundo limitado e repetitivo. Nesse reino, tanto de um lado quanto do outro, no entanto, a elite mundial, em seu clube de hedge fund, escapa de qualquer controle estatal e, ao mesmo tempo, é livre para invadir todas as relações pessoais e econômicas, por meio de filtros de dados acessíveis por mecanismos tecnológicos disponíveis a todos os cidadãos em redes sociais, ambientes virtuais e plug eletrônico global, realidade muito além do que imaginou Orson Welles em 1984; Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo; ou Alvin Toffler em A Terceira Onda, em razão de haver novos teóricos do Apocalipse Quântico.
ENTRELAÇAMENTO QUÂNTICO E AS INTERAÇÕES ALÉM DO ESPAÇO E TEMPO
Haveria de ter uma saída para aplacar o sentimento individual de vazio e depressão nesse ambiente de distrações midiáticas relâmpagos e viciantes ou para criar ou redefinir a própria realidade. Nesse sentido, Nietzsche já havia proposto a superação do sofrimento humano por meio de seu Ubermensch, cuja meta seria a liberação total do potencial humano em um mundo de percepções ilimitadas. Passado um século dessa ideia, a descoberta do entrelaçamento quântico indica que a humanidade se depara com a possibilidade de moldar a realidade por meio de um sistema de coexistência de infinitas possibilidades, porque todo tecido do universo estaria conectado e representaria uma realidade profunda e intrincada teia de interações - até agora invisíveis -, e além do espaço-tempo e da velocidade da luz. O alcance desse nível de existência dentro ou parte integrante do tecido cósmico significaria a conquista da vida eterna e a concepção de um corpo celeste maior, multidimensional e infinito. Para atingir esse estágio, a Inteligência Artificial poderá processar quantidade de dados ou de algoritmos extremamente complexos em segundos e entregar o modelo desse espectro universal. Ao fim e ao cabo, a IA poderá ressuscitar Deus na imensa vastidão do modelo cósmico e descobrir novas fronteiras de realidade além da remanescente caverna primitiva.
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