Nos últimos dias, a lua se tornou um dos assuntos mais comentados do mundo devido ao lançamento da Missão Artemis II da NASA no dia 1° de Abril. Os registros feitos pelos astronautas ganharam a Internet e marcaram a história, especialmente com a foto do lado oculto do nosso satélite natural. Esse é um dos eventos mais importantes da história espacial das últimas décadas, ficando atrás apenas da Missão Apolo 11 – um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade, nas palavras do Astronauta que compôs a missão Neil Armstrong.
Mas alguns séculos atrás, a Literatura proporcionou uma viagem, através das palavras, bem parecida. Jules Verne publicou em 1865 o livro “Da terra à Lua: Viagem Direta em 97 Horas e 20 Minutos”, que narra uma expedição à Lua – muito antes de qualquer discussão robusta sobre uma missão espacial tão ousada como essa. O escritor é considerado o inventor da ficção científica e publicou obras que até hoje estão no nosso imaginário, como “Vinte mil léguas submarinas” e “Viagem ao centro da Terra”.
Completamente apaixonado por literatura e Teatro, ele cursou direito em Paris, mas decidiu se dedicar à Arte e, através dela, à Ciência. A ficção científica surge como uma esperança na Humanidade e elogio à nossa capacidade racional – ou melhor, Jules Verne acreditava que os homens poderiam chegar a qualquer lugar, inclusive aqueles aparentemente inalcançáveis para o século XIX e seu livro nos mostra isso.
Liderados por um francês chamado Michel Ardan, o grupo estadunidense Gun Club – formado por veteranos de guerra desocupados – constroi um canhão gigantesco para lançar um projétil tripulado para a Lua. A partir daqui, já é possível ver muitas coincidências: o formato dos foguetes, como uma bala, e a importância dos Estados Unidos nessa “aventura” espacial até hoje. Como um grande estudioso, o livro tem uma grande quantidade de cálculos e projeções, tanto da Terra como da Lua. A mais impressionante é, sem dúvidas, sobre o lugar do lançamento mais estratégico para se projetar à Lua. O local da missão espacial fictícia é apenas a 30 km de distância do lançamento da Apollo 11, mostrando a precisão quase profética do estudo realizado pelo autor.
Neste livro, em especial, a tripulação chega apenas à órbita da Lua e no livro seguinte “À Roda da Lua” os astronautas (se assim os podemos chamar) retornam à Terra. Mas um dos primeiros filmes do mundo, “Viagem à Lua” (1902), de Georges Meliès, foi mais ousado que o livro, principal inspiração para essa obra cinematográfica. Com a famosa imagem do pouso no rosto da Lua, os tripulantes chegam até ela e encontram alienígenas – o que ultrapassa os limites do livro, mas marcou a história como o primeiro filme de Ficção Científica e revolucionou os efeitos especiais do século XX.
O que desejo mostrar é que a Ficção Científica, na literatura ou no cinema, está profundamente atrelado ao nosso anseio pela Lua – que antes de Verne se expressa com a admiração de grandes poetas pelo astro, que a tematizaram em diversos poemas. O escritor francês talvez não tenha imaginado que a Ciência, símbolo do progresso, seria usada para tanta destruição. Lembremo-nos que o primeiro passo do homem na Lua, em 1969, só ocorreu devido à disputa de poder na Guerra Fria, após a Segunda Guerra Mundial – que ficou marcada, dentre outras coisas, pelo uso da ciência para dizimar populações inteiras, como em Hiroshima e Nagasaki. Hoje, diante da magnitude da missão Artemis II, temos simultaneamente um país que estimula conflitos desastrosos, como no Irã.
Enfim, Verne foi um grande defensor do papel da Literatura como uma semeadora de esperança e, sobretudo, de Humanidade – afinal, apenas nós produzimos Ciência, conquistamos a Terra e o Espaço. Para quê dominamos tudo isso? É uma pergunta cuja resposta talvez não animaria tanto esse grande entusiasta do Progresso. Uma de suas frases mais famosas é “Tudo o que um homem pode imaginar, outros homens podem realizar.”, que sigamos imaginando e, sobretudo, futuros melhores.
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