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Quarta-feira, 13 de Maio de 2026
Raça, leitores e suas leituras

Yasmin Malaquias

Raça, leitores e suas leituras

Reflexões sobre a adaptação “Morro dos ventos uivantes”

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O debate em torno da recente adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily
Brontë, mostra como os clássicos permanecem vivos — e politicamente tensionados.
Publicado em 1847, o romance se passa nas charnecas do interior da Inglaterra e é estruturado
em dois volumes que espelham destinos, violências e heranças emocionais.
Heathcliff é, sem dúvida, um dos personagens mais emblemáticos da literatura inglesa.
Adotado pelo Sr. Earnshaw e introduzido na família como um estranho, frequentemente
chamado de “cigano” de forma pejorativa. Sua trajetória é marcada pela rejeição, pela
desumanização e por uma posição ambígua dentro da casa: acolhido e, ao mesmo tempo,
rebaixado à condição de servo após a morte do patriarca. A exclusão racial e social não é
detalhe — é motor do ressentimento que estrutura a narrativa.
Na adaptação cinematográfica de 2026, Heathcliff foi interpretado por Jacob Elordi, o
que gerou forte reação entre leitores. A crítica central não é apenas estética, mas estrutural: ao
embranquecer o personagem, altera-se o eixo simbólico da obra. Se a marginalização de
Heathcliff é também racial, apagar esse marcador enfraquece a lógica de sua exclusão e,
consequentemente, a densidade de sua vingança.
A célebre frase de Catherine — “Seja lá qual for o material de que nossas almas são
feitas, a minha e a dele são do mesmo” — revela a intensidade do vínculo entre eles. Ainda
assim, ela o rejeita. A justificativa explícita é social: casar-se com Heathcliff significaria
degradar seu status. Mas o social, no romance vitoriano, está atravessado por raça, origem e
pertencimento. Mesmo quando ele retorna rico, a marca da alteridade permanece.
Essa discussão ecoa reflexões de Frantz Fanon em “Pele Negra, Máscaras Brancas”,
quando afirma: “Para o negro, existe apenas um destino. E ele é branco.” Fanon analisa como
o sujeito negro – e racilizado, no geral – é constantemente pressionado a se moldar a uma
norma branca para ser reconhecido. Ao transformar Heathcliff em um galã branco e desejável,
a adaptação parece realizar simbolicamente essa assimilação — tornando-o aceitável ao olhar
dominante.
No romance, Heathcliff não é apenas objeto de desejo: é ameaça, excesso,
ressentimento encarnado. Sua condição de estrangeiro — racial, social e afetiva — é o que
sustenta o trágico da narrativa. Retirar esse elemento não é uma escolha neutra; é uma
reinterpretação profunda do texto. Talvez o incômodo dos leitores não seja simples fidelidade
ao livro, mas a percepção de que, ao alterar a racialização do personagem, altera-se também o
sentido político da história. E, quando se trata de um clássico como “O Morro dos Ventos
Uivantes”, cada escolha de adaptação é também uma tomada de posição.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): https://assets.masp.org.br/acervo/obra/amnesia
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Yasmin Malaquias

Publicado por:

Yasmin Malaquias

É estudante de Letras da FFLCH-USP e dedica-se ao estudo e à produção de literatura

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