“Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que peço dela.” é o que relata em seu diário Afonso Henriques de Lima Barreto, cuja data de nascimento é dia 13 de maio de 1881, sete anos antes da Abolição da Escravatura, por meio da Lei Áurea. O próprio Lima Barreto esteve presente, sobre os ombros do pai, na missa da Abolição, evento que marcaria profundamente a história brasileira. Mas, como expõe a antropóloga Lilia Schwarcz, a Abolição e Lima Barreto são como o pássaro e a sombra.
De um lado, o pássaro voa alto e plenamente, regozijando da liberdade e dos mais altos patamares que lhe são possíveis de alcançar, enquanto sua sombra continua presa ao chão. A Lei Áurea era a projeção de um sonho pelo qual muito se lutou, em que era possível, independente da raça, que se alcançasse o céu, porém, as pessoas negras da época, mesmo se antes alforriadas ou não, continuaram à margem da sociedade, presas a seus antigos algozes e a novas amarguras. A literatura e Lima Barreto nos exemplificam bem isso.
O autor iniciou na cena literária pré-modernista com a publicação de Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), obra que alcançou “um rumoroso sucesso de escândalo”, segundo a Revista Careta (RJ). Ainda, em mensagem destinada a Lima na mesma revista, “a queixa que recebemos de alguns livreiros: o seu filho escrivão Isaías Caminha nega-se teimosamente a ficar nas estantes das livrarias e anda a percorrer o mundo, rolando de mão em mão, sob a avidez de olhos curiosos.”.
Assim, podemos entender que seu talento literário foi percebido pelo público leitor da época, mas, como o conjunto da obra de um artista sempre paga o preço de sua autoria, Lima Barreto foi sendo esquecido pelo cânone, o qual é reflexo de uma sociedade cuja segregação racial estava mais presente do que se pensava. Por isso, não é de se espantar que o escritor tenha morrido precocemente, em 1° de novembro de 1922, sem nenhum tipo de prestígio.
Ao lado das diversas tragédias que o acometeram ao longo de sua vida, não ser enxergado como um literato em seu tempo foi, talvez, uma das mais graves delas. Com o excerto que iniciou esse texto, podemos ver sua devoção à literatura, não apenas no sentido da escrita, como no dos estudos aprofundados sobre ela. A escrita, seja ela ficcional ou jornalística, foi a sua única e grande missão, pela qual ofereceu tudo e, em vida, não recebeu nada em troca.
Hoje, porém, o escritor é amplamente reconhecido e, apesar de sua frustração, sabia que “quem faz as obras-primas não somos nós, os autores, nem os críticos, nem os amigos dos autores: são os leitores e, sobretudo, o tempo.”. E como livros que refletem tão profundamente a formação brasileira, por meio de críticas irônicas tão bem construídas, poderiam estar à parte do conjunto das grandes obras nacionais e, quiçá, mundiais? Simplesmente assim: não poderiam.
À vista disso, a missão de muitos intelectuais das letras brasileiras hoje é difundir os escritos do autor. Inúmeras teses e publicações investigam aspectos biográficos e estilísticos daquilo que escreveu, bem como suas próprias vivências, como seus períodos internado no Hospital Nacional dos Alienados, em 1914 e 1919. Como dito acima, muitas tragédias atravessaram Lima Barreto: a perda da mãe aos seis anos, as alucinações do seu pai, a decepcionante carreira literária e a internação no hospício, seu último e mais trágico ato.
No livro Diário do Hospício e O cemitério dos Vivos (2022), há o relato da sua experiência internado em um lugar onde, historicamente, muitas violências são perpetuadas e com ele, não foi diferente. Após alucinações decorrentes do seu alto consumo de álcool – muito associado à sua frustração literária –, ele relatou as angústias que o cercaram naquele ambiente e a gradativa perda de lucidez mais em função da situação dilacerante do que de algum distúrbio não diagnosticado.
Entretanto, mesmo ali, a escrita continuou sendo sua única missão. A agonia expressa tantas vezes em seu diário transformou-se em inspiração àquele que seria seu mais novo romance: O cemitério dos Vivos, que conta a história de um homem que foi preso em um manicômio, assim como Lima Barreto. Infelizmente, a vida curta do autor impediu que o livro fosse finalizado a tempo de uma publicação completa, mas os excertos presentes já mostram, mais uma vez, o talento do qual era munido.
Refletir sobre a vida do escritor pré-modernista nunca é o suficiente e o espaço possível nessas linhas não fazem jus às suas produção e contribuição para a riqueza da literatura brasileira. Entretanto, enquanto leitores e detentores do poder de criarmos obras-primas, como Lima Barreto apontou, devemos nos perguntar de quem são os livros que preenchem nossas estantes e quais são os títulos pelos quais buscamos nas bibliotecas. Quantos Limas Barretos ainda estão encobertos pelas consequências de uma Abolição que não passou do plano formal?
“Quando comecei a escrever esse, uma esperança pousou” é a frase com a qual iniciam os escritos do diário íntimo do autor e que, em meio a tantas injustiças, ainda alimenta a esperança que pousa como um pássaro. Ainda, há esperança, por mais que pareça distante. Lima Barreto a cultivou por meio das palavras que nos deixou e da persistência com que seguiu cumprindo sua mais nobre missão: a escrita.
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