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Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
Chica da Silva

Yasmin Malaquias

Chica da Silva

Uma anomalia do Brasil colonial

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Chica da Silva é uma figura muito emblemática da história brasileira. Tanto é que ela continua no nosso imaginário através das produções audiovisuais, em que atrizes de peso, como Zezé Motta e Taís Araújo, deram vida à essa personagem.

Nascida no interior de Minas Gerais, Francisca da Silva de Oliveira era filha de um português e de uma mulher escravizada africana. Seu pai, Antônio Caetano de Sá, não concedeu alforria à própria filha e a vendeu para um médico, Manuel Pires Sardinha, que viria a ser pai do primeiro filho de Chica da Silva, fruto de uma violência sexual.

            Simão Pires Sardinha, seu primeiro filho, foi registrado por seu pai, mas não foi incluído em seu testamento. Anos depois, ela foi vendida para um contratador de diamantes da cidade de Diamantina, João Fernandes de Oliveira, por 800 mil-réis. Cerca de dois meses  depois que ela havia sido comprada, eles assumiram a relação, que gerou 13 filhos.

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            Por ser um dos homens mais ricos da colônia, Chica da Silva gozou de um enorme prestígio e passou a integrar os círculos sociais da época, tendo posses e até mesmo pessoas escravizadas. Quando morreu, foi enterrada na tumba 16 da Igreja de São Francisco de Assis, onde apenas pessoas brancas poderiam ser enterradas, mostrando o poder e a importância dessa personagem.

            Chica é uma anomalia do Brasil colonial. Apesar de não ter lutado pelo direito das pessoas escravizadas, ela mostrou as contradições profundas de uma sociedade fundada na escravidão e no privilégio racial. Sua ascensão social, embora excepcional, não rompeu com a lógica violenta do sistema colonial; ao contrário, foi possível justamente porque esse sistema permitia exceções que reafirmavam a regra.

Essa mulher evidencia que mobilidade individual não significava transformação coletiva: sua trajetória ilumina os limites da liberdade em um país que naturalizou a desumanização de muitos para garantir o conforto de poucos. Mais do que um mito sedutor, Chica é um espelho incômodo do Brasil — um país em que poder, raça e violência caminharam (e ainda caminham) lado a lado.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:1-19394-0000-0000_Baiana.jpg
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Yasmin Malaquias

Publicado por:

Yasmin Malaquias

É estudante de Letras da FFLCH-USP e dedica-se ao estudo e à produção de literatura

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