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Sexta-feira, 06 de Novembro 2026
Política e Cultura: quando a cidade vira assunto
Jonatas de Oliveira 23 Acessos

Política e Cultura: quando a cidade vira assunto

Uma reflexão sobre a cidade, a política, a cultura e as pessoas que vivem nela

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Sempre gostei de política. Não apenas da que ocupa os noticiários, dos discursos em Brasília ou das disputas eleitorais, mas daquela que atravessa a vida cotidiana e revela o que uma sociedade valoriza — e quem ela escolhe não deixar para trás.

A política está na escola que funciona ou deixa de funcionar, no transporte que usamos, nas oportunidades de trabalho, nos espaços públicos e nas possibilidades que uma cidade oferece a seus moradores. Está, também, na cultura. É nessa relação que encontro uma das minhas principais inquietações.

Sou artista, autor e diretor teatral. Desde 2007, minha trajetória está ligada à Trupe Eureka Cia. de Teatro, trabalho construído com a convicção de que a arte não deve ser privilégio: ela pode ser encontro, formação, expressão e transformação.

Quem vê um espetáculo pronto nem sempre conhece o caminho até ele. Antes da apresentação, há a busca por um espaço para ensaiar, o esforço para reunir pessoas, a falta de recursos e a necessidade de conciliar a produção artística com a própria sobrevivência. Há, sobretudo, o trabalho contínuo de fazer a cultura ser reconhecida como parte essencial da vida pública.

É nesse ponto que a arte encontra a política. Não porque todo artista precise estar filiado a um partido, nem porque a cultura deva servir a um governo. Ao contrário: a cultura precisa de liberdade e autonomia para criar, provocar e questionar, inclusive quem ocupa o poder. Mas não é possível discutir o desenvolvimento cultural de uma cidade sem olhar para as decisões que definem prioridades, distribuem recursos e determinam como os equipamentos públicos são utilizados.

Uma cidade pode reunir artistas talentosos, grupos independentes, escritores, músicos, atores e pessoas dispostas a construir projetos coletivos. Para que essa produção alcance mais pessoas, é importante haver políticas públicas consistentes, acesso a espaços, critérios transparentes de incentivo e continuidade das ações.

Política cultural não precisa se limitar a grandes eventos, programações comemorativas ou atividades que rendem boas imagens para as redes sociais. Essas iniciativas podem ter seu valor, mas ganham ainda mais sentido quando fazem parte de uma visão ampla: que inclua a formação artística, o trabalho cotidiano dos grupos independentes, quem está começando, quem persiste há décadas e quem nunca teve a oportunidade de entrar em um teatro.

Isso significa pensar na criança que descobre novas possibilidades por meio da arte, no jovem que encontra uma forma de expressão, no adulto que retorna aos estudos e na pessoa idosa que ainda deseja aprender, criar e participar. Cultura também é convivência, pertencimento e direito à cidade.

Em Franco da Rocha, essa conversa merece espaço. Não para transformar a política numa disputa permanente de acusações, nem para deixar de reconhecer iniciativas importantes. O debate público pode acolher avanços, identificar desafios, discutir responsabilidades e imaginar alternativas. Para isso, é necessário olhar para a experiência concreta de quem vive e produz na cidade, ouvindo diferentes perspectivas.

Criticar não significa ser inimigo. Reconhecer uma iniciativa positiva não significa abrir mão da independência. O diálogo com o poder público é importante, assim como o direito de fazer perguntas e apresentar propostas. Da mesma forma, a autonomia de um artista não deveria ser confundida com isolamento ou falta de colaboração.

É possível defender políticas culturais e discutir maneiras de aprimorá-las. É possível considerar as dificuldades administrativas de uma gestão e, ao mesmo tempo, buscar soluções para que as ações avancem. Também é possível valorizar o que já foi realizado e apontar o que ainda pode melhorar. Uma discussão madura não exige unanimidade; exige informação, transparência e disposição para escutar.

É desse lugar que nasce meu interesse em escrever sobre política e cultura. Não tenho a pretensão de oferecer respostas definitivas ou de ocupar o lugar de quem acredita saber tudo. Quero partir das perguntas, dos acontecimentos, das experiências e das contradições que atravessam nossa cidade. Quero observar o que as decisões públicas significam, na prática, para quem vive, trabalha, cria e constrói sua história aqui.

Uma coluna dedicada a esses temas pode aproximar assuntos que muitas vezes são tratados separadamente, embora estejam profundamente conectados: investimentos culturais, uso dos equipamentos públicos, valorização dos artistas locais, participação popular, memória da cidade e o papel da cultura na formação de uma sociedade crítica e democrática.

A política precisa ser observada para além dos períodos eleitorais. A cultura, por sua vez, precisa ser compreendida para além do entretenimento. Uma cidade não se desenvolve apenas quando constrói estruturas físicas ou amplia indicadores econômicos. Ela também avança quando cria condições para que seus habitantes pensem, questionem, contem suas histórias e reconheçam a diversidade que forma sua identidade.

Falar de cultura é falar de acesso, orçamento, escolhas, direitos e prioridades. É perguntar quem tem condições de produzir, quem consegue ser ouvido e quais histórias uma sociedade decide preservar — ou deixar para trás.

Talvez o papel de uma coluna seja justamente esse: não encerrar as discussões, mas abrir espaço para que aconteçam com mais informação, responsabilidade e profundidade. Observar uma cidade é tentar compreender as forças que a movimentam, as decisões que a transformam e as pessoas que, muitas vezes longe dos holofotes, insistem em fazê-la acontecer.

A cultura expressa quem somos. A política influencia as condições em que podemos nos tornar aquilo que ainda desejamos ser. É por isso que falar de uma é, inevitavelmente, falar da outra.

Jonatas de Oliveira

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Internet

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Jonatas Oliveira

Publicado por:

Jonatas Oliveira

Formado em Letras, dramaturgo, ator, diretor artístico e arte-educador. Fundador da Trupe Eureka Cia. de Teatro. Sua trajetória é marcada pela defesa da arte como direito, instrumento de transformação social e expressão da identidade de um povo.

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