A chegada de um grande campus de data centers a Franco da Rocha foi apresentada como um marco para a cidade e para a infraestrutura digital do país. Apesar do peso econômico do anúncio, a instalação de um empreendimento desse porte também levanta uma série de questionamentos. Data centers são estruturas essenciais para a economia digital, mas costumam exigir grande volume de energia elétrica, sistemas de refrigeração robustos, infraestrutura urbana preparada e fiscalização rigorosa sobre impactos ambientais e operacionais.
📺 Se inscreva no canal do YouTube do Dois Pontos
📲 Participe do canal do Dois Pontos no WhatsApp
Leia Também:
Um dos principais pontos de atenção é o consumo de energia. A Agência Internacional de Energia aponta que os data centers já representavam cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade em 2024 e que essa demanda deve mais que dobrar até 2030, impulsionada principalmente pela inteligência artificial. O órgão também destaca que, embora o impacto global ainda seja proporcionalmente limitado, os efeitos locais podem ser muito mais intensos, especialmente em regiões que concentram grandes estruturas do setor.
No caso de Franco da Rocha, o debate se torna ainda mais sensível porque o projeto anunciado prevê 300 MW de capacidade elétrica, com subestações próprias no local. Isso não significa, automaticamente, risco ao abastecimento da população, mas exige explicações claras: de onde virá essa energia, qual será o impacto na rede local, quais obras serão necessárias e se haverá algum custo indireto para o município ou para os consumidores.
Outro ponto que precisa ser esclarecido é o uso de água. Data centers geram calor constante e precisam de sistemas de refrigeração para manter os servidores funcionando. A quantidade de água consumida varia muito conforme a tecnologia utilizada, o clima e o modelo de resfriamento.
Em uma cidade como Franco da Rocha, historicamente marcada por enchentes, áreas de risco e desafios de infraestrutura urbana, a discussão não pode se limitar ao entusiasmo com o investimento.
A promessa de geração de empregos também merece análise cuidadosa. Durante a construção, o número de trabalhadores costuma ser maior. Porém, na fase de operação, data centers geralmente funcionam com equipes mais enxutas e altamente especializadas. Investigações sobre o setor na América Latina apontam que, depois da construção, os postos permanentes podem ser bem menores do que a expectativa criada inicialmente, o que reforça a necessidade de programas reais de capacitação para moradores da cidade.
Por isso, a chegada do data center não deve ser tratada apenas como uma vitória econômica. Ela precisa vir acompanhada de transparência. A Prefeitura de Franco da Rocha, a empresa responsável e os órgãos ambientais devem explicar à população quais estudos foram realizados, quais licenças foram concedidas, qual será o consumo estimado de água e energia, quais contrapartidas serão oferecidas e como o município será beneficiado de forma concreta.
Franco da Rocha pode, sim, entrar no mapa da tecnologia e da inteligência artificial. Mas uma cidade não pode receber um empreendimento bilionário sem saber exatamente o que ele consome, o que ele entrega e quais impactos deixa para a população. O avanço tecnológico é bem-vindo, desde que venha acompanhado de planejamento, fiscalização e responsabilidade pública.
