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Domingo, 08 de Fevereiro de 2026
O colo da minha avó foi uma cantina de escola

Jorge Henrique Ramos

O colo da minha avó foi uma cantina de escola

O que Dona Antonia me ensinou sobre trabalho nenhuma escola ensinaria

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As responsabilidades do cotidiano são uma loucura. É pressão para sair do ensino fundamental, entrar no ensino médio, depois a preparação para o vestibular e, por fim, a faculdade e a entrada no mercado de trabalho. Tudo começa muito cedo, mas confesso que nenhuma dessas etapas citadas anteriormente – pasmem – foi tão fundamental quanto o dever de socializar e trabalhar cedo, algo imposto pela minha avó, Dona Antonia.

Quando eu tinha 14 anos, ela me pediu para mudar o horário da escola, do período da manhã para a noite. Ela queria que eu começasse a trabalhar na cantina que minha família tinha em uma escola de Francisco Morato, o Belém da Serra. Inicialmente, fiquei triste. Minha rotina de estudos pela manhã e futebol durante toda a tarde estava prestes a mudar para sempre.

O afago da infância saía pela porta da frente, enquanto a responsabilidade, sem ser convidada, entrava pela porta dos fundos — uma ótima maneira de não assustar o dono da casa, pelo menos no começo. A partir de então, de segunda a sexta, eu e Dona Antonia (ou tia Keka, dependendo da ocasião) levantávamos às 5h20 para pegar o ônibus rumo a Francisco Morato e começar a luta.

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A cantina já fazia parte da minha vida muito antes de eu começar a trabalhar por lá. Minha mãe passava o dia todo fora para não deixar faltar nada na mesa ou no guarda-roupa. Então, muitas vezes, quando não havia com quem me deixar, a solução dos meus avós era me levar para a cantina. Eu dormia e brincava nos fundos da cozinha, num vão de 120 cm com um colchão no chão. Só pelo fato de estar ao lado da minha avó, eu não sentia falta de nada. Na verdade, eu estava no paraíso — e meu anjo da guarda usava avental e touca.

Bem antes de ter a cantina como local de trabalho diário, eu já arriscava um trampo por lá de vez em quando. Fiquei fera nas contas, na cobrança dos fiados e no desenrolo das vendas antes mesmo dos 10 anos de idade. Eu já estava familiarizado com o processo.

Quando o sinal batia e o relógio marcava 12h20, começava a saída da turma da manhã e, para mim, a parte mais cansativa do dia. Eu tinha menos de uma hora para descer a pé até o centro da cidade, comprar as carnes dos salgados da tarde e a reposição de pirulitos. Segundo o Google Maps, o trajeto que eu fazia era de 1,5 km na ida e mais 1,5 km na volta — sendo o retorno subindo a ladeira da escola com uns 20 quilos de sacolas em cada braço, na maioria das vezes, sob um calor de mais de 30°C ou debaixo de chuva.

Pela demora, não valia a pena esperar o ônibus, e aplicativo de transporte que trouxesse motorista até você era coisa de filme de ficção. Para mim, era uma honra não deixar mais minha avó passar por isso após muitos anos, e isso me bastava. Com o troco das compras, eu passava na banca e comprava os dois jornais esportivos mais conhecidos da época, Lance e Placar, que já reforçavam meu desejo de ser jornalista.

Eu bati o pé com a minha avó, dizendo que não queria dinheiro e que estava ali apenas para ajudar. Ela, com o pensamento lá na frente, fez questão de me ensinar a valorizar meus ganhos. Assim, me pagava 60 reais por semana. Já no primeiro pagamento, ao passar pela antiga Ponte Seca, no centro de Francisco Morato, comprei minha primeira camisa do Corinthians por 30 reais. Era preta, com o número 9 e o nome do Ronaldo nas costas, e um bordado do símbolo para lá de duvidoso. Áurea.

Pessoal, o que eu tenho de experiência e história daquela cantina não caberia nesta coluna. Mas a moral da história cabe — e pode fazer sentido para alguns, principalmente aqueles que não foram herdeiros.

A cantina da escola onde trabalhei tão cedo era como o colo da minha avó: um lugar de sustento, aprendizado e, sobretudo, afeto. Enquanto ela me ensinava a servir lanches e a dar o troco certo, também me passava, sem palavras, a lição de cuidar, de estar presente, de construir laços com aqueles que vinham buscar algo além da comida — talvez um pouco de acolhimento. Minha avó, aliás, foi a melhor psicóloga que eu já vi.

No balcão, entre salgados e refrescos, entendi que o trabalho também pode ser um gesto de amor. Minha avó não me colocou ali apenas para ajudar, mas para crescer sob o calor da sua proteção.

Tudo foi como os aprendizes nas antigas corporações de ofício da Idade Média, quando mestres artesãos ensinavam seus ofícios aos mais jovens, muitas vezes dentro da própria família. Assim como um ferreiro passava seu conhecimento ao neto para garantir a continuidade do trabalho e dos valores da profissão, minha avó me colocou atrás do balcão não apenas para vender lanches, mas para me ensinar sobre responsabilidade, convivência e a importância do esforço diário.

Naquela cantina, mais do que um emprego precoce, eu herdei um jeito de ver o mundo através do cuidado e do trabalho bem-feito.

Termino fazendo questão de ressaltar: isso não é sobre “romantização” do trabalho infantil, mas sobre uma parte da minha história com a maior professora que eu tive.

Aliás, escute Bença, do rapper e historiador Djonga, e você também vai entender que não é em blog de hippie boy que se aprende sobre ancestralidade.

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Jorge Henrique Ramos

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Jorge Henrique Ramos

Jornalista, escritor e palestrante, foi conselheiro estadual da juventude e é autor do livro "Por trás dos muros da insanidade", tem mais de 10 anos de experiência na gestão pública.

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