Tinha dias em que a panela fervia no fogão antes mesmo do sol aparecer. Era hora de levantar, lavar o rosto e começar tudo de novo. O som da vassoura pela casa, o cheiro do café, os gritos da vizinhança acordando cedo… era esse o despertador da minha infância. Cresci entendendo que parar não era uma opção.
Minha infância foi adiantada. Não por escolha, mas por contexto. Enquanto outras crianças ainda brincavam de casinha, eu já organizava uma de verdade. Não porque era bonito ou louvável, mas porque precisava. Porque na minha casa, como em tantas outras, cada um fazia o que podia para que o dia seguinte existisse.
Quem já me acompanha por aqui ou faz parte de algum ciclo da minha vida sabe que o trabalho e os deveres de casa começaram desde muito cedo na minha história. Minha tia Keka, a filha mais nova da minha avó, não teve infância pra me dar uma. Cuidou de mim, da casa, e ainda me ensinava que a organização do nosso lar era como um pré-manual da organização pra vida.
Aos nove anos, eu já cuidava de todos os afazeres domésticos, inclusive cozinhava o básico. Além disso, trabalhei em cantina de escola, em pastelaria fritando pastel e fazendo caldo de cana, entre outras coisas. Enfim, muitas coisas mesmo.
Aliás, eu sempre evitei falar sobre isso, porque, como homem preto, tudo pode soar diferente dependendo da esfera: para uns, obrigação; para outros, sentimento de pena; e para os maldosos, conversa fiada para validar a minha história. Validação, pena e obrigação: três palavras que, pra quem é preto, não são apenas reações do outro, são trilhas que a gente aprende a andar com cuidado desde cedo.
A validação é como um carimbo difícil de conseguir. A gente precisa fazer o dobro, ser impecável, pra talvez ouvir um “parabéns” que vem cheio de surpresa, como se a nossa competência fosse exceção. Quando eu dizia que trabalhava desde criança, muita gente não acreditava. Achavam exagero, drama, ou então perguntavam: “mas você precisava mesmo?”, como se a nossa realidade fosse um roteiro inventado pra comover. Ser validado, pra nós, às vezes exige performance: mostrar a luta com dignidade, sem parecer que está reclamando demais.
A pena também é traiçoeira. Porque vem travestida de empatia, mas carrega uma hierarquia invisível: “nossa, que dó, você passou por tudo isso.” Dó não muda a estrutura, não corrige a desigualdade. Só serve pra manter a gente num lugar simbólico de superação, onde a dor é quase um troféu. E isso cansa. Porque nem sempre a gente quer ser admirado pela dor, às vezes, só queremos existir sem ter que provar nada.
E a obrigação… ah, parça, essa é silenciosa e pesada. Desde pequeno, eu sentia que não podia errar. Que precisava ser forte, responsável, educado, produtivo. Porque, pra gente, a margem do erro é estreita. Uma criança branca pode “dar trabalho”. Uma criança preta “dá problema”. A cobrança é tão grande que a gente cresce se perguntando se está sempre fazendo o suficiente, não pra se destacar, mas pra sobreviver sem ser questionado.
No fim, tudo isso molda também nossas escolhas profissionais. Porque, quando você vem de onde eu venho, não escolhe só o que ama. Você escolhe o que pode. O que é seguro. O que dá retorno. O que vai te proteger, te defender, te colocar à frente sem te deixar vulnerável. E essa escolha, quando acontece, já vem atravessada por mil outros olhares: o da sociedade, o da família, o do medo, o da estatística.
Meu pai, por exemplo, pensou muito nesses últimos pontos. Quando falei que faria jornalismo, ele não concordou de imediato. Para ele, Educação Física me daria mais oportunidades por ser, na visão dele, uma profissão menos racista. Depois de uma conversa em que expliquei como a comunicação social era uma área ampla e cheia de possibilidades, as coisas mudaram. Talvez não por ter mudado de ideia com o que eu disse, mas por saber que minha teimosia e força de vontade eram maiores do que qualquer outro talento meu.
Hoje, com quase 10 anos no jornalismo, tenho certeza de que escolhi o caminho certo. Mas sabe qual é a sensação que me acompanha todos os dias? A certeza de que, qualquer coisa que eu escolhesse, eu daria conta. Não por arrogância. Por consciência. Porque o que me sustenta vem da minha mãe, da minha tia Keka, da minha avó, do meu pai que teve medo e coragem ao mesmo tempo. Vem de todos que vieram antes de mim com sonhos que o mundo não deixou nascer.
A verdade é que, quando a gente cresce com responsabilidade antes da hora, aprende cedo a resolver, a correr atrás, a levantar cedo e dormir tarde. Aprende a ser firme na fala, a perceber os ambientes, a se comportar em cada canto como se estivesse sendo avaliado o tempo inteiro porque está. Isso não deveria ser normal, mas é o que nos forja.
Então, sim, hoje eu sei que o jornalismo foi a escolha certa. Mas sei também que, se tivesse virado professor, educador físico, assistente social ou qualquer outra coisa, eu daria conta. Porque, pra gente, mais do que dar certo, é sobre fazer valer. E isso, eu aprendi desde a infância.
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