A geração do meu pai, do meu avô foi criada embaixo de uma masculinidade frágil onde sinônimo de virilidade é ser aquele macho que não demonstra fraqueza, que não admite se distanciar do que a sociedade denomina como padrões de masculinidade. E assim morrem-se as Lurdes, Tânias e Cristianes. Entre um questionamento e outro eu me pego pensando que o gênero é uma construção social binária que divide as pessoas entre grupos de homens e mulheres a partir do sexo biológico que elas apresentavam ao nascer e por esse motivo se prega até hoje que as pessoas podem ser reduzidas a isso. Nasceu com órgão reprodutivo feminino? Entre aqui na fila da desvalorização, homofobia e violência.
Eu demorei pra fazer a digestão da série “Adolescência” e sintetizar os gatilhos que ela me causa- eu tenho um menino adolescente. Ainda agora pesa, no estômago, na cabeça. Muitas são as dores que nos atravessam, se você, assim como eu, tiver o dom de carregar as dores do mundo. Também não faz muito tempo que aprendi a lidar com esses atravessamentos, as dores mudam, é claro, vem e vão, mas assim como os estados de felicidade, estão sempre presentes.
Esta semana, confesso, está insuportável, quando abro a rede social, então:
“BRASIL REGISTRA 6 FEMINICÍDIOS EM 24H NO RIO GRANDE DO SUL.”
“CORPO DE ESTUDANTE DA USP É ENCONTRADO EM ITAQUERA.”
Sério, não dá pra respirar. É sufocante. Aqui eu paro, levanto, espaireço, volto depois de algumas horas.
Ainda é domingo de páscoa para os católicos e não católicos- que agradecem um feriado prolongado. A angústia ainda tá aqui. E incomoda. Tem texto que não nasce, é expurgado.
Nunca fez tanto sentido a frase de que os homens amam aos próprios homens, é tanta aversão e negação ao feminino e o mais triste é que não se restringe ao passado. O que mais tem na internet é macho misógino.
A série nos traz termos como “Incel”, “Red Pill” e explica que meninos precisam, querem validação social e atribuem suas dificuldades de relacionamento afetivo e sexual às mulheres. Eu sei, amiga. Respira.
De verdade eu acredito na educação sob a ótica da igualdade de gênero, mas é no mínimo desesperador pensar que 5 em cada 10 meninos não têm certeza se são amados por seus pais e 6 em cada 10 meninos afirmam ter poucas referências positivas de masculinidade de quem convivem e eu nem tô falando de abandono. O fato é que além dos dilemas da adolescência, esses meninos de 13, 14 anos crescem solitários e com distúrbios emocionais por não terem o hábito de conversar sobre os seus maiores medos e dúvidas com suas famílias ou amigos.
Sem romantizar, sei que estou criando um menino amoroso e sensível que, infelizmente, não está totalmente livre das amarras tóxicas que acomete nossos jovens, sei também que o buraco é tão mais embaixo que seguir qualquer cartilha sobre questões de gênero.
O lembrete é constante: “Marielle, presente”.
Lua Souza
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