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Sábado, 08 de Agosto 2026
Sarampo, Covid e a conta que a polarização ainda vai apresentar
Thaís Rivera

Sarampo, Covid e a conta que a polarização ainda vai apresentar

Essa semana, duas notícias que pareciam pertencer a tempos diferentes se cruzaram na mesma manchete.

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De um lado, São Paulo lida com o retorno da circulação de sarampo — o estado confirmou, até 3 de agosto, 16 casos (13 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos), dez deles em bebês de até 1 ano, a faixa mais vulnerável à forma grave da doença. De outro, a política brasileira reabriu, com inesperado vigor, o debate sobre vacinas contra a Covid-19, depois que o imunologista Anthony Fauci foi convocado a depor no Senado americano, num comitê presidido pelo senador republicano Rand Paul, crítico de longa data de Fauci.

A coincidência de calendário não é irrelevante. E é precisamente aí que a coluna de hoje quer chegar: a desinformação sobre a vacina não é um debate abstrato de rede social. Ela tem, meses depois, um preço mensurável em cobertura vacinal — e, na sequência, em doenças que o país já havia dado como superadas.

O que aconteceu nesta semana

A audiência de Fauci no Senado dos EUA reacendeu no Brasil um discurso que muitos gestores de saúde esperavam ver enterrado. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou vídeo — que já passou de 37 milhões de visualizações — afirmando, sem apresentar provas, que diários pessoais de Fauci revelariam contradições, que ele teria escondido um efeito adverso da vacina e que teria abandonado a hidroxicloroquina por pressão política, num tratamento que "poderia ter salvado milhões". Dos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro disse que quem culpou seu pai por mortes durante a pandemia "caiu numa fake news em relação à vacina" e deveria pedir desculpas. Outros aliados do ex-presidente, como o senador Magno Malta e o ex-ministro Eduardo Pazuello, reforçaram o discurso de que "Bolsonaro tinha razão".

Vale lembrar a dimensão do que está em jogo quando esse discurso ganha espaço: depoimentos à CPI da Covid, com base em estudos epidemiológicos, estimaram que ao menos 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas caso o país tivesse adotado medidas de controle e imunização mais rápidas durante a pandemia, que já registrou mais de 700 mil óbitos no Brasil.

A conta que chega depois, na cobertura vacinal

É tentador tratar esse tipo de episódio como ruído político passageiro. Mas dados de imunização mostram que o ruído se converte, com defasagem, em comportamento real de adesão à vacina — e o sarampo é o exemplo mais didático disso.

O Brasil não atinge a meta de 95% de cobertura para a vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, rubéola e caxumba) há anos: em 2025, ficou em 92,9% na primeira dose e 78,3% na segunda. Em São Paulo, o quadro é mais grave. Dados preliminares de 2026 apontam 77,5% de cobertura na primeira dose e 65,5% na segunda — uma queda de quase 17 e 19 pontos percentuais, respectivamente, em relação ao mesmo período do ano anterior, quando os índices eram de 94% e 84,4%.

Essa erosão não nasceu esta semana. Mas discursos recorrentes de desconfiança em imunizantes — sejam eles sobre Covid ou sobre qualquer outra vacina do calendário — alimentam exatamente o tipo de hesitação vacinal que produz esses números. E o resultado, meses depois, é o vírus do sarampo voltando a circular na Grande São Paulo — com Guarulhos registrando, em 2026, seu primeiro caso desde 2020 —, menos de dois anos depois de o Brasil ter recuperado, com esforço, seu certificado de eliminação da doença.

Uma linha que a política não deveria ter o direito de cruzar

Aqui eu não vou fingir neutralidade: vacina não é — e não deveria jamais ser tratada como — pauta ideológica partidária. Não existe versão de direita ou de esquerda para imunidade de rebanho, para eficácia de imunobiológico, para taxa de letalidade evitável. Existe evidência, e existe gestão de risco.

E, para não tratar isso em abstrato: nesta semana, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou vídeo alegando, sem provas, que Fauci teria escondido informações e abandonado tratamentos por pressão política — concluindo que "Jair Bolsonaro tinha razão" desde o início da pandemia. Eduardo Bolsonaro, dos Estados Unidos, cobrou desculpas de quem culpou o pai por mortes na pandemia, alegando que essas pessoas caíram em desinformação sobre vacinas. Cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a estratégia busca mobilizar a base bolsonarista justamente num momento considerado desfavorável para a campanha de Flávio Bolsonaro, reaproveitando um recurso eleitoral usado desde a campanha presidencial de 2018.

Nada disso é "opinião divergente" nem "outro lado" a ser equilibrado em nome do debate democrático. Infectologistas consultadas pela mesma reportagem afirmam que as alegações — de que máscaras seriam ineficazes, de que hidroxicloroquina e ivermectina teriam sido injustamente abandonadas, de que efeitos adversos de vacina foram ocultados — não encontram sustentação nos grandes estudos clínicos e de farmacovigilância já publicados. É desinformação com histórico de custo humano documentado — a CPI da Covid estimou em ao menos 400 mil o número de mortes evitáveis se o Brasil tivesse agido diferente durante a pandemia — e que agora ajuda a explicar por que São Paulo, uma das regiões metropolitanas mais estruturadas do país, tem hoje cobertura vacinal quase 19 pontos abaixo do que tinha há um ano.

Usar hesitação vacinal como estratégia de mobilização eleitoral é jogar com saúde de criança para ganhar voto de adulto. E o fato de essa retomada do tema coincidir com um momento delicado para a campanha da família Bolsonaro não é sinal de convicção científica — é sinal de cálculo político puro. Só ainda não é, aparentemente, insustentável o suficiente para ser abandonado.

Há uma imagem que me parece cada vez mais precisa para descrever o que estamos vivendo: um país polarizado, partido quase ao meio em praticamente qualquer tema — inclusive, agora, em algo que devia ser consenso técnico básico. Essa divisão não é inofensiva nem se esgota nas urnas. Ela tem um eixo do tempo: o que hoje é embate discursivo em rede social e palanque eleitoral, meses depois se converte em ponto percentual perdido de cobertura vacinal, e anos depois — se a tendência persistir — se converte no retorno de doenças que o país já havia dado como resolvidas. O sarampo circulando de novo em São Paulo, quase dois anos depois de o Brasil reconquistar seu certificado de eliminação, não é fenômeno isolado: é o primeiro item de uma conta que a polarização em saúde pública ainda vai apresentar, item por item, se a lógica de metade do país desconfiando de vacina continuar sendo tratada como normalidade política em vez de emergência sanitária.

O que isso exige da gestão em saúde

Do ponto de vista de quem já geriu operação de urgência e time multiprofissional, o problema não se resolve combatendo discurso com discurso — mas também não se resolve tratando-o com falsa cordialidade. Resolve-se com dados acessíveis ao cidadão, comunicação de risco constante, não apenas em época de surto, e com gestores dispostos a chamar desinformação pelo nome, mesmo quando ela vem de quem ocupa cargo eletivo.

A boa notícia é que a reação sanitária já está em curso: São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo iniciam agora campanha de multivacinação estendida, com Dia D previsto para 22 de agosto. A má notícia é que continuamos numa lógica reativa, correndo atrás de uma cobertura que só volta à agenda quando o vírus já circula — e discutindo, ainda em 2026, uma pergunta que a ciência já respondeu há décadas.

Quanto tempo mais o país vai permitir que cálculo eleitoral pese mais do que evidência científica na política de imunização?  E quem vai pagar essa conta, de novo, em forma de doença ?




Fontes: Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), CNN Brasil (03/08/2026), Ministério da Saúde, Agência Brasil, BBC News Brasil / Correio Braziliense (05/08/2026, por Rute Pina) e depoimentos públicos à CPI da Covid-19 (Senado Federal, 2021).

Nota: os números de casos de sarampo mudam quase diariamente; os dados acima refletem o boletim mais recente disponível até o fechamento desta coluna (3 e 5/08/2026) e podem precisar de atualização no momento da publicação.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): internet

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Thaís Rivera

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Thaís Rivera

Gestora em saúde, enfermeira e pedagoga com experiência em gestão pública. Primeira geração universitária via ProUni, especialista em políticas públicas, equidade e transformação social.

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