Mais um final de semana atípico de setembro, um sábado chuvoso e preguiçoso, diria quase tedioso, caso o tédio não cedesse lugar a uma preocupação de escala alarmante, que é a do piscinão da minha cidade transbordar, assim como o rio Tietê hoje, e meu país, Franco da Rocha, localizado numa região não tão favorecida, alagar mais uma vez.
Novembro do ano passado, eu estava aqui escrevendo todas as terças uma crônica para o Portal Dois Pontos e falando de assuntos como “November Rain”, morangos do amor, Bobbie Goods. Contudo, com a correria do dia a dia e o cansaço que a minha profissão dos sonhos me proporciona, fui parando de enviar os textos semanalmente e agora é assim: envio textos esporádicos quando tenho um tempinho livre e disposição para escrever, é claro.
Acontece que, olhando umas fotos da galeria para publicar no meu Insta do último dia 08, na qual levei meus alunos para um passeio na Bienal do Livro 2026, e vendo alguns posts e comentários de quem foi, cheguei ao seguinte questionamento: se os jovens de hoje, se as pessoas não leem, quem está lotando a Bienal?
Como professora de Língua Portuguesa da rede pública e escritora de poesias, me alegro em dizer que, apesar de ter levado apenas um ônibus e escolhido a dedo os estudantes para a excursão, devido ao número máximo para entrada no evento ser de 40 alunos, na escola em que trabalho, no centro de Morato, município com o menor PIB per capita (a quantidade de riqueza produzida dividida pelo número de habitantes) do Estado de São Paulo, poderia ter levado no mínimo mais um fretado, e com todos os assentos preenchidos, pois havia muito mais crianças interessadas no rolê literário, o que me faz ter esperança, por mínima que ela seja. Porque, sim, esses mini queridos leitores do Fundamental 2, mesmo sendo um grupo seleto e representando menos de 1/3 do colégio, em sua maioria, estão devorando um livro após o outro.
Coincidentemente ou não, o algoritmo me direciona a um post do publicitário Gil Pinna, que questiona justamente essa superlotação que venho acompanhando: por que a Bienal está tão lotada? Isso é algo positivo ou é só mais uma moda da vez, como o novo morango cravejado, ou estão indo pelos estandes instagramáveis? — Sou demasiado artística para esta realidade.
Mas, se é só por isso, como eu vi centenas, milhares de pessoas comprando e gastando com 5, 8, 10 livros e até malas cheias, levando em conta que a Bienal não é uma feira do livro e os preços não são tão acessíveis?
Gil explica que realmente houve um aumento no setor editorial, que cresceu 3,3% em seu faturamento. Eu, que não me dou muito bem com números e cálculos, aprendi a me importar e não mais ignorar as estatísticas ou a política. O fato é que os escritores estão sendo ovacionados, entrando nesse lugar de influenciadores da literatura. Então é isso: o hype do livro está no ar, e muita gente agora quer sentir novamente, ou pela primeira vez, o cheiro do livro físico e a tal da conexão real que caiu em desuso.
Eu, de verdade, e com toda minha visão romantizada, apesar de hoje o acesso aos livros ser mais fácil, a luta pela atenção com concorrentes desleais, como smartphones e seus vídeos curtos, e o próprio algoritmo fragmentarem o nosso foco diário, também espero que não seja apenas um entusiasmo coletivo e passageiro, que essa vibe da leitura ultrapasse os portões do evento, os muros das escolas e volte a se tornar um hábito vivo no cotidiano brasileiro, como nos cortes de vídeos nostálgicos espalhados pelas redes, onde se mostravam pessoas das décadas de 70/80 lendo em todos os lugares, ainda que a realidade da época apresentasse taxa alta de analfabetismo, menor escolaridade básica, além de menos acesso aos livros.
“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.
Lua Souza.
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