"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé." A
marchinha de Dorival Caymmi resume bem o espírito de uma festa que se tornou sinônimo
do Brasil. Quando as primeiras batidas dos tambores ecoam pelas ruas, algo mágico
acontece. Por alguns dias, vivemos aquilo que o filósofo russo Mikhail Bakhtin chamou de "a
segunda vida do povo", uma existência paralela onde o riso e a alegria ocupam o lugar da
seriedade do cotidiano.
Essa festa, porém, não nasceu pronta. Sua trajetória é marcada por lutas e transformações.
O carnaval que conhecemos hoje carrega séculos de resistência cultural e se reinventa a
cada geração. Celebrá-lo é também fazer política e afirmar pertencimento.
A humanidade sempre soube que precisava de dias de inversão da ordem. Na Roma
Antiga, durante as Saturnálias, escravos sentavam-se à mesa dos senhores. Na Grécia, as
Dionísias celebravam a fertilidade e o vinho com liberdade total. Na Babilônia, durante as
Saceias, um prisioneiro assumia temporariamente o trono real. Esses rituais declaravam
que reis e súditos compartilham a mesma condição humana.
A Igreja Católica inicialmente quis abolir essas festas pagãs. Percebeu, porém, que lutava
contra algo profundo demais para ser apagado. A solução foi incorporar o carnaval ao
calendário litúrgico como o último período de prazer antes dos 47 dias de jejum da
Quaresma. O nome "Carne Vale" significa adeus à carne e resume essa negociação entre o
sagrado e o profano.

No Brasil, o carnaval chegou em 1533 com os portugueses na forma do Entrudo, uma
brincadeira caótica de jogar água, farinha e outras substâncias uns nos outros. Era violento
e refletia as divisões sociais da colônia. Senhores podiam molhar escravos, mas o inverso
era proibido. A elite do século XIX acabou banindo o Entrudo e criou bailes de máscaras
refinados, inspirados em Veneza e Paris, onde podiam transgredir com elegância e
distância da rua.
Enquanto a elite se divertia nos salões fechados, algo revolucionário nascia nas ruas e
terreiros da "Pequena África" carioca, região ao redor da Praça Onze e da Pedra do Sal. Ali,
nas casas das Tias Baianas como Tia Ciata, o candomblé se misturava ao batuque para
criar uma nova identidade sonora.
Em 1917, "Pelo Telefone", registrado por Donga, tornou-se o primeiro samba gravado em
disco. A cultura afro-brasileira, até então marginalizada e criminalizada, explodiu para o
centro da cena nacional. Em 1928, no bairro do Estácio, nasceu a Deixa Falar, a primeira a
se autoproclamar "escola de samba". Estava fundado um novo território de resistência e
orgulho negro no país.
A Portela, criada em 1923 como Conjunto Oswaldo Cruz, se tornaria a mais vitoriosa das
escolas, com 22 títulos. Seu legado vai além dos troféus. Foi nas quadras e alas das
escolas de samba que o povo negro brasileiro encontrou espaço para reescrever a própria
história e ocupar o centro da cidade de cabeça erguida.
Como diz Vanda Pinedo, importante pesquisadora do tema, "o carnaval é espaço político, é
momento de lutar contra a discriminação". Os enredos das escolas frequentemente
resgatam heróis e episódios apagados dos livros didáticos oficiais. O carnaval vira escola
do povo na rua.
O carnaval brasileiro tem muitas faces. Em Recife e Olinda, o frevo faz os passistas
levitarem enquanto bonecos gigantes dançam ao lado do Galo da Madrugada, o maior
bloco do mundo. Na Bahia, os trios elétricos transformam caminhões em palcos móveis de
música, enquanto blocos afro como o Ilê Aiyê reafirmam com orgulho a beleza e a potência
negra. No Maranhão, as Casas da Roça e o Tambor de Crioula celebram tradições que
remontam aos tempos coloniais.

Cada região tem suas próprias cores, mas todas compartilham o mesmo princípio. A rua se
torna palco da democracia festiva, onde todo mundo se mistura no mesmo chão de confete.
Ainda falando de história, temos também a figura do Rei Momo, originalmente o deus grego
do sarcasmo, que sintetiza o espírito carnavalesco. Quando o prefeito entrega as chaves da
cidade ao Rei Momo, realiza-se um ritual simbólico. O poder oficial reconhece que existe
uma força maior: a alegria popular que lembra que nenhuma ordem é eterna.
Essa é a função profunda do carnaval. Ele nos lembra que a realidade pode ser diferente.
Durante alguns dias, experimentamos uma utopia possível onde o corpo é reverenciado,
onde todos os corpos ocupam a avenida, onde quem normalmente está à margem samba
no centro.
Quando a Quarta-feira de Cinzas chega e as fantasias voltam para os armários, algo
permanece. Fica a memória da liberdade e a certeza de que somos mais do que nos dizem
ser. Como ensina Bakhtin, o carnaval é a realidade em sua forma ideal ressuscitada.
Celebrar o carnaval é honrar a memória de Tia Ciata e dos mestres do Estácio. É
reconhecer que o samba e o frevo são expressões sofisticadas da cultura brasileira. É
entender que quando um corpo negro desfila como destaque na avenida, acontece
reparação histórica.
O carnaval é a segunda vida do povo brasileiro. Que privilégio imenso poder celebrar isso
todos os anos!
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