A rivalidade, sem exceção, está presente em nossas vidas desde muito cedo. Seja por meio de um esporte, de um conflito entre ideias diferentes ou qualquer outro contexto que coloque pessoas ou grupos em competição.
A palavra “rival” vem do latim rivus, que significa curso d’água, riacho, arroio. E, como na maioria das vezes, a explicação está lá na Roma Antiga. Naquela época, os cursos d’água eram canalizados e divididos entre agricultores que trabalhavam próximos uns aos outros, com um sistema que permitia abrir e fechar o acesso à água para irrigar as plantações. Como aproveitadores são mais velhos do que rascunho de Bíblia, isso deu brecha para que alguns tentassem prejudicar os colegas de profissão para se beneficiar com mais água. Assim, nasceram verdadeiras rivalidades.
Agora que seu parça aqui te deu uma mini aula de história, vamos nos aprofundar nesse tema no mundo da música. Há muita rivalidade nesse meio, seja entre artistas de carreiras distintas ou até entre colegas de banda. Na cultura pop, essas tretas são conhecidas como beef, que, em inglês, significa “carne”, mas também funciona como gíria para disputas entre artistas. No hip-hop, essas rivalidades costumam se manifestar através das famosas diss tracks.
No universo das rimas e beats, uma das tretas mais conhecidas foi entre Tupac Shakur e The Notorious B.I.G., que protagonizaram a maior rivalidade do final do século XX. Os rappers vestiram suas melhores versões nesse conflito, que impactou suas carreiras e a indústria musical como um todo.
Com insultos trocados em músicas que entraram para a história, o fim, infelizmente, foi trágico. Essas disputas frequentemente geravam brigas entre gangues da Costa Oeste (Tupac) e da Costa Leste (Notorious), e, consequentemente, os dois símbolos do hip-hop tiveram suas vidas abreviadas. Não por suas canetadas, mas pelos gatilhos influenciados pelo clima de ódio.
O tempo passou e, quase 30 anos depois, o mundo do hip-hop voltou a presenciar uma rivalidade que, se não chega a ser tão intensa quanto aquela, é uma das que mais se aproximam em alcance midiático.
“They like us, say Pac and Big?”
No último dia 9 de fevereiro, não se falava em outra coisa nas redes sociais: a apresentação de Kendrick Lamar no Super Bowl, que adicionava um novo capítulo à briga entre o rapper e Drake, também um dos maiores nomes da indústria. Mas como isso começou? Vem aqui que eu te explico resumidamente, pequeno gafanhoto.
De um lado do ringue: Drake.
Se consolidou em 2016 com Hotline Bling, que hoje soma mais de 2 bilhões de visualizações no YouTube. Ganhou cinco Grammys e foi eleito pela Billboard o 4º maior artista pop do século. A autoestima do canadense, que já não era baixa, ficou daquele jeitão.
Do outro lado do ringue: Kendrick Lamar.
Nascido em um dos berços do rap estadunidense, Compton, Lamar tem uma carreira recheada de sucessos e prêmios. Entre suas conquistas, estão 22 Grammys e um Prêmio Pulitzer, sendo um dos únicos dois músicos fora da música clássica a recebê-lo. Se Kendrick já se considerava um dos maiores, depois de anos, ele resolveu provar.
Kendrick e Drake chegaram a gravar faixas juntos no início de suas carreiras, mas o que antes era apenas uma discussão entre fãs tomou conta dos estúdios: quem seria o maior? As provocações veladas começaram a aparecer, e tudo escalou em outubro de 2023, quando o rapper J. Cole (esse também é brabo) se referiu a si mesmo, Drake e Kendrick como os “três grandes” do rap.
Kendrick discordou. Em Like That, de Future e Metro Boomin, ele mandou a real: existe apenas um “grande” — ele mesmo.
Drake comprou a briga e lançou Push Ups, tirando sarro das colaborações de Kendrick com Maroon 5 e Taylor Swift. Foi então que Lamar levou pro coração e respondeu com Euphoria, zombando das inseguranças de Drake e incluindo referências à raça do canadense. Algo do tipo: “branco demais pra ser preto e preto demais pra ser branco”, tá ligado?
A partir daí, meus amigos, foi só ladeira acima — ou melhor, só pedrada atrás de pedrada. Eles demoravam menos de 24 horas para responder com uma nova música. E quando parecia que a poeira ia baixar, veio Not Like Us, onde Lamar não só continua a atacar Drake, mas também insinua que ele tem comportamento suspeito com garotas menores de idade. O resto da história, vocês já sabem.
De qual lado você está?
Quem me conhece sabe: sou MUITO fã dos dois. Estive no Rock in Rio em 2019 só para ver o Drake e quase fui à última apresentação do Kendrick em São Paulo (mas vacilei e não garanti o ingresso a tempo). O talento de ambos é inquestionável, e como um bom fã de hip-hop, consumo as tracks sem moderação.
Obviamente, citar a treta de Pac e Big aqui foi mais para prender a atenção e fechar o arco da coluna do que para fazer uma comparação direta. Se você leu até aqui, só prova que eu estava certo.
Com as redes sociais e o fácil acesso à informação, não dá para negar: estamos diante de uma das maiores rivalidades da história da música. As torcidas organizadas de cada lado tentam, a todo momento, desmerecer o que Drake ou Kendrick fizeram pelo rap e, sinceramente, isso é insano. Chega a ser engraçado.
A história está sendo feita diante dos nossos olhos, mas tem gente que prefere ignorar e “fechar o sistema de irrigação” do outro lado. Rivalidade, em alguns casos, é osso.
Toma partido quem quer. Curte o momento quem entende. E nessa treta, eu tô do lado da música boa!
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