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Quinta-feira, 14 de Maio de 2026
ELOGIO AOS IDIOTAS

Hermano Leitão

ELOGIO AOS IDIOTAS

Por que alguns são mais iguais do que outros?

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A Declaração Universal dos diretos humanos e a Constituição Federal brasileira de 1988 instituíram o princípio fundamental de que "todos são iguais perante a lei” em primazia de sistemas jurídicos democráticos. Significa que todos os cidadãos, independentemente de sua origem, raça, sexo, religião ou qualquer outra característica, são tratados de forma igualitária perante o sistema legal. Esse ditame, no entanto, em visão futurística de Orwell, é desafiado pela realidade de que alguns são mais iguais que outros e as desigualdades são inatas à natureza, e a consciência desse estado natural sem tabu acarretaria a liberação das riquezas humanas.

COTAS, AUXÍLIOS, PRIVILÉGIOS E O JOGO DO TIGRINHO

Nos Estados Unidos, os 10% mais ricos recebem o equivalente a 1.8 vezes a massa global dos ganhos dos 40% mais pobres. De similitude, a China é classificada como um dos países mais desiguais do mundo sem perspectiva de mudança. A menina dos olhos do mundo da primazia da igualdade, a Suécia, também não escapa ao crescimento das desigualdades materiais e financeiras. Assim, seja capitalista, comunista, social democrata, a desigualdade socioeconômica se impõe como uma regra universal auto nutrida, ainda que políticas voluntaristas de alguns Estados ou imposições ideológicas, sem sucesso, como se a natureza humana impusesse sua própria lei. É como dar um auxílio sem a contrapartida de um esforço, e assistir o beneficiado gastá-lo com o “jogo do tigrinho”

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No final do século XIX, Vilfredo Pareto fez uma descoberta estonteante ao observar os legumes de seu jardim. Ele constatou que um pequeno número de pés de ervilha produzia a maior quantidade de ervilhas, ao passo que outros pés não produziam quase nada. A partir dessa observação de produção desigual, ele se indagou se tal fenômeno ocorreria em outros domínios. Ele analisou, por exemplo, a repartição de riqueza na Itália, e. pra sua surpresa, descobriu que 20% da população possuiam 80% das terras produtivas do país, em semelhança com a atividade de seus pés de ervilhas. De arremate, todos os recursos eram controlados por uma minoria produtiva em todas as outras economias estrangeiras que ele observava. Para a elite política, a desigualdade é a porteira para o confinamento daqueles que dependem do auxílio para serem fornidos, como numa vida de gado, povo marcado, povo feliz.

NA AMAZÔNIA, ÍNDIO QUER APITO

Essa ideia de que uma minoria representa a maioria advém do “princípio de Pareto” – comumente conhecida como regra 80/20 -, que justificaria a desigualdade como fator natural do desenvolvimento dos seres, sem qualquer distinção de lugar, mesmo na floresta amazônica, onde somente 1,4% das espécies de árvores representa 50% da cobertura vegetal. Apesar das constatações naturais, as ideologias soerguem tabus para impor temas de liberdade de expressão e criar o mito da igualdade no apito final de cada partida, porém desafiado pela dogmática lei matemática de Laplace e Gauss, em que a desigualdade é a regra.

AS VIRTUDES DA DESIGUALDADE PARA A HUMANIDADE

Diversidade, variedade, multiplicidade, pluralidade e multiformatos são as virtudes da desigualdade, porque as diferenças geram riquezas e ricos. Historicamente, todos aqueles quà pobreza, e, ainda pior, foram submetidos a regimes orientados pela privação de liberdade e do pensamento crítico. Nessa lógica da natureza humana, a desigualdade é portadora dos potenciais individuais quer se trate de inteligência material, quer emocional, para a conquista de fortunas e autossuficiência. Em igual perspectiva, o sentido de justiça abraça o tratamento desigual aos desiguais, a exemplo do acesso gratuito à Justiça para aquele hipossuficiente ou da prioridade na fila do pão para idosos, porém não se pode confundir a condição étnica ou de ileteracidade com deficiência crônica, sob pena de desequilibrar o convívio pacífico entre os indivíduos e criar uma sociedade violenta, pobre, desonesta, domesticada e ignorante.

ELOGIO AOS IDIOTAS

Para não criar inveja e ressentimentos em ambiente de supervalorização dos desprovidos por condição conceitual, é melhor se disfarçar de idiota, como aconselha Arthur Schopenhauer. Assim, aquele desejo compulsivo de preservar reputação ou admiração dos outros constitui, em realidade, uma fraqueza humana. De fato, Schopenhauer constatou que as pessoas geralmente levam em conta demais as opiniões dos outros a respeito de si, embora, qualquer que seja o tipo de opinião, não traga reflexo essencial no desenvolvimento pessoal, muito menos para a felicidade. Dessa forma, não deixe que as pessoas saibam que você se esforça para ser o melhor de você e tenha consciência de que, apesar de sua inteligência e altas qualidades pessoais, nem tudo pode ser controlado, ou, o desejo de demonstrar o máximo de habilidade intelectual e ficar orgulhoso de se colocar em um alto patamar de existência pode causar sofrimento profundo. Então, não receie se passar por idiota, não se entregue às massas e as ilusões, não tenha medo de ficar sozinho consigo mesmo, pois, no mundo em que alguns são mais iguais do que outros, apenas você pode superar-se, como ditado no Tratado sobre a Burrice ao Alcance de Todos.

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Hermano Leitão

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Hermano Leitão

Advogado, ator, escritor e ex-Procurador-Geral de Caieiras, autor de livros e peças teatrais de destaque nacional.

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