Jóceano é o segundo filho de uma família de classe média baixa da periferia da grande metrópole. Seu pai era machista e hedonista por conta de afazeres coletivos, mas, ao pisar em casa, era autoritário e violento. A mãe de Jóceano era analfabeta, submissa e ausente na orientação dos filhos por pura ignorância; Nesse ambiente, o infante Jóceano tentou ganhar a vida no mundo de pequenos furtos e delinquências. Ao atingir a puberdade, mostrava uma irritabilidade notável em relação ao sexo feminino, ao desdenhar comportamentos abertos e independentes das mulheres. Ao atingir a maioridade, em meio a um romance fortuito, engravidou uma moça, que, por todas as aberturas de cavidades corporais, não era virgem, ao que mais tarde seria objeto de xingamento, a incluir acusações sobre a pregressa prostituição de sua sogra. Com a esposa acidental, ainda teve mais seis filhas, das quais duas gêmeas, ao que considerou o ambiente familiar insuportável. Por não ter capacidade de desenvolvimento escolar, especialmente na dificuldade de se concentrar, aprender e lembrar modelos lógicos, não concluiu o segundo grau e optou por ser encanador.
MISOGENIA
Apesar de ser pai de sete filhas ou porque identificou certa fragilidade no comportamento feminino, passou a agredir verbal e fisicamente mulheres que o desafiassem ou que tinham presença forte e autônoma, ao ponto de afetar a forma de se sentir e comportar como carrasco delas. A progressão dessa maneira de agir repercutiu em sua dificuldade em organizar os pensamentos e em expressá-los de forma lógica e coerente, a ponto de achar que elas estariam interessadas em destruí-lo. Muitas vezes, confidenciou a colegas que tinha ouvido certa mulher dizer que tinha um plano para acabar com ele, e que, ao passar por ela, notou seus olhos arregalados e a mão pronta para lhe dar um tapa na cara. Ainda, reverberou a todos que havia desenvolvido um poder de vidência auditiva sobre fatos que ele via exclusivamente e eram reveladores das fraquezas de suas inimigas. Essa habilidade teria sido desenvolvida pelo hábito de ouvir o que se passava no encanamento desentupido por ele na casa de clientes.
A PAIXÃO POR FRANZ MARTELÃO
Em uma tarde de domingo, Jóceano foi assistir a uma competição de rodeio de oito tambores, onde conheceu Franz Martelão, um empresário de origem germânica e atuante na área da construção civil, que tinha paixão por cavalos, pintassilgos e pintarroxos. Loiro e de olhos azuis, Martelão também tinha suas diferenças com a patroa, mas se orgulhava da prole masculina dotada de inúmeros predicados. Foi um encontro profundamente empático, de um lado, Jóceano não tinha como disfarçar a admiração pelo talento de Martelão e sua amabilidade encantadora como nunca antes tinha se deparado na vida. Do outro lado, Martelão viu nele a oportunidade de desentupir os gargalos a que Jóceano podia liberar perante o irmão mais velho, e de associar-se aos negócios clandestinos rentáveis, que expandiriam suas atividades empresariais com a cobertura e conivência dos poderosos e da organização criminosa a que todos se vinculavam na região. A união foi selada com pacto de sangue, juras de amor fraterno e frequência obsessiva de Jóceano na garagem de Martelão.
TRABALHO DE AMOR NÃO PERDIDO
A julgarem-se capazes de dominar os declínios da natureza humana e as exigências dos próprios sentidos, Jóceano e Martelão decidiram devotar-se prioritariamente ao crime organizado, a empreender uma estratégia oriunda da ausculta das vozes do encanamento, de muita propina e de pouco sono. Para tanto, entre outros cuidados, Jóceano ordena que nenhuma mulher aproxime-se mais de uma milha da garagem. Porém, a chegada da nova juíza e das novas promotoras na região faz com que se arrependam amargamente dos juramentos amorosos e evidencia a inanidade de suas determinações criminosas. No final, nem tudo foi arruinado para Jóceano, porque ao ser condenado a prisão, foi encarcerado na sela com Martelão, e, juntos, tramaram uma fuga através das instalações hidráulicas do presídio, e desapareceram nas águas fundas do rio Jequiti.
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