Desde a manhã de 28 de outubro de 2025, não se fala de outra coisa senão da megaoperação realizada pelas forças de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro nos complexos da Penha e do Alemão. Após o ocorrido, iniciou-se um intenso debate sobre a legitimidade da ação policial, comandada por um Estado falido.
Sob ordens do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, as polícias Civil e Militar realizaram uma operação que entrou para a história do mundo ocidental. O objetivo era enfraquecer o Comando Vermelho, facção que domina a área onde vivem cerca de 112 mil habitantes sob seu jugo, segundo o IBGE. A operação envolveu uma série de mandados de prisão e tinha como alvo específico Edgar Alves de Andrade, vulgo Doca ou Urso da Penha — uma das principais lideranças da facção fora da cadeia. Com mais de 55 anos e uma extensa ficha criminal, Doca construiu uma reputação de respeito no mundo do crime, a ponto de enfrentar uma guerra entre 2.500 policiais e seu exército de 400 homens armados, uniformizados e até equipados com drones de uso militar.
A operação teve um efeito devastador na comunidade. Até agora, são 121 mortos — entre eles, quatro policiais — e uma população traumatizada após 24 horas de tiroteios, com corpos estirados pelo chão como carne seca em mercadão municipal. E Doca continua solto.
O que não te contaram é o seguinte: a menos de um ano das eleições federais, as políticas públicas entram em ritmo acelerado. O governador Cláudio Castro desponta como um dos favoritos a uma vaga no Senado em 2026, às vésperas de ser julgado por abuso de poder econômico nas eleições de 2022. Castro é acusado de manter mais de 27 mil cargos “fantasmas” para atuar como cabos eleitorais em sua campanha de reeleição. Somada à fragilidade do governo federal no combate à violência, a megaoperação liderada por Castro parece uma tentativa de se consagrar como herói nacional.
A operação dividiu opiniões. No entanto, grande parte da população, cansada da ineficácia das políticas de segurança pública, saiu em defesa do governador. Com uma ação claramente eleitoreira, Castro expôs o calcanhar de Aquiles do governo federal. E, caso seja realmente cassado, poderá se colocar como mártir. Logo após, reuniu-se com seis governadores conservadores para anunciar o “Consórcio da Paz”, voltado à segurança pública.
Por outro lado, o governo federal, liderado pelo presidente Lula — que até então nadava de braçada rumo à reeleição e ao quarto mandato — agora parece mais perdido que azeitona na boca de banguelo. Dias após declarar que traficantes são vítimas dos usuários, Lula teve de enfrentar não apenas a opinião pública, mas também uma operação que escancarou um Estado ajoelhado diante do crime organizado. Diante da carnificina, Lula permaneceu em silêncio, sem saber o que dizer. Publicou uma nota no X (antigo Twitter) afirmando que a população não pode mais ficar refém do crime organizado. Dias depois, apareceu em vídeo com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, dizendo ter a fórmula mágica da paz. Como cantou Anderson Leonardo, do grupo Molejo, na canção “Samba Diferente”, Lula disse: “Eu vou te ensinar como é que se faz.”
Isso mesmo: após quase 20 anos à frente do país, vendo o crime organizado ocupar todos os espaços de destaque na sociedade, Lula promete combatê-lo de forma efetiva e inteligente — e há quem acredite. Após a operação, Castro afirmou ter comunicado e pedido ajuda ao governo federal, mas não recebeu respaldo. Disse que o Estado do Rio de Janeiro estava sozinho e abandonado. A ministra de Relações Institucionais negou que o governo federal tenha sido acionado. Já a Polícia Federal, sob comando do governo federal, confirmou ter sido comunicada, mas se recusou a participar.
Castro, vendo a comoção popular a seu favor, prometeu mais enfrentamento ao crime organizado, chegando a disponibilizar relatórios aos EUA classificando facções como terroristas — algo que o governo federal nega. Segundo o governo, não há terrorismo, desde que a motivação seja financeira e não ideológica. Pode-se matar, assombrar a população, ameaçar a soberania nacional e dominar territórios nas capitais do país — desde que seja por dinheiro. Diante do caos, o governo federal pede paciência. E quem pede paciência nessas horas geralmente já perdeu o controle da situação.
O presidente Lula, que já afirmou que não se combate o crime organizado com flores, hoje os classifica como vítimas da sociedade. Em seus governos, viu o crime tomar proporções gigantescas e agora está com seu calcanhar de Aquiles exposto. Enquanto isso, Castro — às vésperas de ser cassado — joga para a torcida, mesmo sendo aquele jogador que não joga nada. A imprensa, por sua vez, presta um desserviço ao tratar essa megaoperação como simples enfrentamento entre polícia e tráfico de drogas. As imagens foram claras: aquilo era um exército disposto a resistir às forças policiais. E, diante de um cenário de guerra, a regra máxima é: matar ou sobreviver.
Enquanto isso, o Brasil caminha a passos largos para se tornar um narcoestado.
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