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Quinta-feira, 14 de Maio de 2026
O coaxar do sapo-cururu

Yasmin Malaquias

O coaxar do sapo-cururu

A voz modernista rompendo os paradigmas da literatura brasileira

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O Modernismo no Brasil surgiu em um contexto histórico de grandes transformações sociais, econômicas e políticas. No início do século XX, o país experimentava uma intensa urbanização, impulsionada pela industrialização e pela imigração, o que provocou uma configuração social diferente da que se tinha. As antigas estruturas tradicionais estavam em processo de desmoronamento, gerando um desejo de renovação nas artes e na literatura. Essa busca por uma identidade brasileira mais autêntica e moderna refletia as mudanças em curso na sociedade.

A Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo, foi um marco fundamental desse movimento. Organizada por um grupo de artistas e intelectuais, como Graça Aranha, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Anita Malfatti, o evento tinha como objetivo romper com as tradições acadêmicas e europeias que dominavam a arte produzida no contexto brasileiro. Durante a semana, diversas manifestações artísticas foram apresentadas, incluindo poesia, música e artes plásticas, todas exaltando a originalidade e a liberdade de expressão. Esse evento incentivou o Modernismo, conferindo visibilidade aos novos ideais e abrindo espaço para uma produção artística que refletisse as particularidades da cultura brasileira.

As críticas dos modernistas em relação às escolas literárias anteriores são extremamente marcantes, já que, para eles, tudo o que havia sido produzido no Brasil até então era uma cópia do exterior. Enquanto o Romantismo e o Parnasianismo valorizavam, respectivamente, a idealização da mulher e da nação e a forma e a estética clássica, os modernistas defendiam a inovação e a experimentação. O Modernismo promoveu a quebra de normas, o uso da linguagem coloquial e a inclusão de elementos da cultura popular dentro das obras de arte. As criações de autores como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira refletem um desejo de autenticidade, frequentemente utilizando temas e ritmos brasileiros em um estilo mais livre na poesia.

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Um exemplo significativo dessa nova estética é o poema “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, cujo retrato, feito por Candido Portinari, acompanha este texto. Embora publicado em 1919, no livro Carnaval, o poema dialoga fortemente com o espírito modernista que se consolidaria na Semana de Arte Moderna em 1922 – tanto é que Ronald de Carvalho o leu durante o grande evento. Com ironia e bom humor, Bandeira critica as convenções da poesia tradicional, utilizando a figura dos sapos como metáfora para a rigidez e o elitismo dos poetas formais.

Vejamos o poema:

Os sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"- "Foi!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo".
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...

Ao afirmar que “os sapos cantam/ à beira do rio”, o eu-lírico revela uma simplicidade que contrasta com a pomposidade das escolas anteriores, valorizando o cotidiano e o popular. Os diferentes sapos que aparecem no poema representam distintos tipos de poetas, como o sapo-tanoeiro, que seria o parnasiano: “O sapo-tanoeiro,/ Parnasiano aguado,/ Diz: – ‘Meu cancioneiro/ É bem martelado’.”, fazendo uma sátira à escrita métrica tão prezada durante esse movimento.

O sapo-cururu, por sua vez, é o poeta modernista, que preza pela simplicidade das construções. Também é possível observar um intertexto com uma canção popular, ou seja, há uma retomada dos traços da brasilidade em sua forma mais simples. O poema, cujo esquema de rimas é ABAB, apresenta ainda fortes traços de humor em sua composição, retomando elementos populares.

Em suma, a Semana de Arte Moderna de 1922 não apenas marcou o início do Modernismo no Brasil, mas também estabeleceu as bases para uma nova literatura, que buscava expressar a realidade brasileira de maneira autêntica e inovadora. Através de poemas como “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, fica evidente como a poesia modernista se afastou das tradições para dialogar com a cultura popular e refletir sobre a complexidade da sociedade brasileira. A partir desse momento, a arte e a literatura no país passaram a dialogar de forma mais profunda com a identidade nacional e as transformações sociais do período.

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Yasmin Malaquias

Publicado por:

Yasmin Malaquias

É estudante de Letras da FFLCH-USP e dedica-se ao estudo e à produção de literatura

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