As décadas de 1950 e 1960 foram marcadas por intensas transformações geopolíticas. O debate entre ditaduras e democracias dominava as redações dos jornais, enquanto países do continente africano conquistavam suas respectivas independências. Nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis colocava em cheque a imagem do país, que se apresentava como modelo de democracia. Nesse movimento, personalidades como Martin Luther King, Rosa Parks e Bayard Rustin ganhavam cada vez mais notoriedade. No entanto, o personagem que iremos tratar aqui destoa completamente dos citados, embora seu objetivo fosse o mesmo: a luta pela liberdade dos negros, tanto nos Estados Unidos quanto no mundo todo.
Nascido em 19 de maio de 1925, em Omaha, Nebraska, Malcolm Little cresceu na sua infância junto aos irmãos. Ele presenciou o assassinato de seu pai, Earl Little, e de seus tios, ambos vítimas de grupos de supremacistas brancos. Sua mãe, Louise Little, se relacionou com outro homem e, após engravidar novamente, foi abandonada. Sozinha e sem condições de criar seus filhos, Louise começou a sofrer de surtos psicóticos, sendo internada e perdendo a guarda dos filhos. Malcolm, então, cresceu em uma série de lares adotivos.
Ainda jovem, morando no bairro do Harlem, em Nova York, ficou conhecido como "Detroit Red" por causa do cabelo avermelhado. Envolveu-se com diversos delitos, como tráfico de drogas, roubos e jogos de azar. Segundo o historiador Manning Marable, Malcolm também teve relacionamentos sexuais com outros homens por dinheiro. Outro fato interessante é que, quando foi convocado para a Segunda Guerra Mundial, ele se fingiu de louco para ser dispensado.
Malcolm foi preso aos 21 anos e condenado a 10 anos de prisão por roubo. Esse momento marcou uma mudança radical em sua vida. Dentro da prisão, teve acesso a uma vasta biblioteca e se dedicou à leitura como nunca antes. Autores como W.E.B. Du Bois, Friedrich Nietzsche e Immanuel Kant ajudaram a moldar seu pensamento. Além disso, a visão Garveista transmitida por seus pais também influenciou sua formação ideológica. Durante sua estadia na prisão, ele se converteu ao islamismo. Após 5 anos e 6 meses, Malcolm foi solto e se juntou à Nação do Islã, tornando-se o ministro mais importante da organização liderada por Elijah Muhammad, o líder da seita islâmica. Seus discursos ganharam notoriedade na imprensa, alcançando proporções globais e tornando Malcolm uma figura maior que o próprio líder da seita.
No entanto, após 14 anos de dedicação à Nação do Islã, e em meio a uma série de escândalos envolvendo a imagem de Elijah Muhammad, Malcolm decidiu sair da organização.
Após uma peregrinação a Meca, Malcolm, que dentro da Nação do Islã defendia a ideia de um separatismo racial — acreditando que negros e brancos não poderiam conviver em harmonia — passou a perceber que pessoas de todas as etnias poderiam sentar à mesma mesa, orar umas pelas outras e viver em paz. Assim, seu discurso mudou. Malcolm passou a acreditar em uma sociedade mais integracionista, embora continuasse a combater o preconceito racial que os afro-americanos enfrentavam nos Estados Unidos.
Em julho de 1964, Malcolm decidiu fazer uma viagem que mudaria o rumo de sua vida para sempre. Ele viajou ao continente africano para se reunir com chefes de estado de países recém-descolonizados e denunciar os crimes cometidos contra a população negra nos Estados Unidos, ameaçando até mesmo levar o país à Corte Internacional e às Nações Unidas. Seus discursos chamaram a atenção de muitos países da África e do Oriente Médio.
Ao retornar aos Estados Unidos, Malcolm fundou suas próprias organizações: a Associação da Mesquita Muçulmana e a Organização para Unidade Afro-Americana, que atraíram até membros da Nação do Islã.
Foi em 21 de fevereiro de 1965, durante um discurso no salão Audubon Ballroom, no Harlem, em Nova York, que Malcolm X foi assassinado por membros da Nação do Islã, diante de suas filhas, esposa e de todo o público presente. Embora o crime tenha sido atribuído à seita islâmica, hoje sabemos que o FBI tinha membros infiltrados na organização para espionar a vida e os passos de Malcolm.
Malcolm defendia que os afro-americanos deveriam se defender da violência policial a qualquer custo, inclusive utilizando armas de fogo. Tentaram associar sua imagem ao comunismo, algo que ele sempre refutou. Malcolm dizia que, assim como discursar em igrejas metodistas não o tornava metodista, acreditar que o socialismo seria uma arma de combate ao racismo dentro do capitalismo não fazia dele um socialista, muito menos um comunista.
De fato, Malcolm X inspirou movimentos como o Partido dos Panteras Negras, foi citado em diversas letras de rap e teve um dos discursos mais eloquentes do século passado. Apesar de ser considerado radical por alguns e raivoso por outros, ninguém pode desmerecer alguém que deu sua própria vida pela causa de seus irmãos.
Viva os 100 anos de Malcolm X!
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