O avanço da tecnologia transformou a maneira como nos relacionamos, mas também abriu portas para novas formas de violência — silenciosas, invisíveis e perigosamente normalizadas. Entre mensagens de “bom dia” e localização compartilhada, muitas mulheres estão sendo monitoradas, controladas e manipuladas por parceiros que usam o afeto como pretexto para o abuso. A violência digital tem crescido nas relações afetivas, especialmente por meio de práticas como o stalking, o monitoramento constante e o chamado gaslighting digital. São situações em que o celular, que deveria ser símbolo de liberdade e conexão, se transforma em um instrumento de cerco psicológico.
Aplicativos espiões que rastreiam mensagens e ligações, exigência de senhas das redes sociais, vigilância da localização em tempo real e até manipulação de dados e conversas para confundir a vítima. Tudo isso compõe um cenário de controle disfarçado de cuidado, que mina a autonomia, isola socialmente e abala a saúde mental. O agressor, muitas vezes, justifica esse comportamento com frases como “é só para te proteger” ou “quem não deve, não teme”, criando um ciclo de dependência emocional e culpabilização da vítima.
Desde 2021, o Código Penal brasileiro passou a prever o crime de perseguição (stalking), incluindo condutas digitais que ameacem a liberdade ou a privacidade da vítima. Mas a responsabilização ainda é um desafio, porque a violência digital costuma ser invisibilizada, relativizada e, muitas vezes, tratada como “problema de casal”. A Lei Maria da Penha, por sua vez, é clara ao proteger as mulheres também contra abusos psicológicos, morais e patrimoniais — e isso inclui as agressões cometidas por meios eletrônicos. O que falta, muitas vezes, é reconhecimento e acolhimento.
Muitas mulheres nem percebem que estão sendo vítimas. Naturalizam o ciúmes excessivo, o rastreamento, os acessos às suas contas como gestos de amor. Esse é justamente o mecanismo mais perverso da violência digital: ela se esconde sob o discurso da proteção. Quando a mulher começa a duvidar de si mesma, a sentir medo de sair, culpa por conversar com amigas, ou vergonha de questionar o parceiro, o ciclo do abuso já se instalou.
Além disso, o agressor digital raramente age de forma isolada. É comum que esse controle venha acompanhado de outros tipos de violência — moral, psicológica, financeira e até física. O uso da tecnologia, nesse contexto, serve para ampliar o alcance do domínio sobre a vítima e reforçar a sensação de que ela está sendo constantemente vigiada, o que afeta sua liberdade de escolha e seu bem-estar emocional. É uma violência que não se vê, mas que se sente em cada passo vigiado, em cada mensagem lida sem consentimento, em cada “curtida” questionada.
É urgente que as mulheres identifiquem que estar em um relacionamento não significa abrir mão da privacidade ou aceitar invasões como prova de amor. Desconfiar de atitudes invasivas, buscar orientação, registrar provas e procurar apoio são passos essenciais para quebrar esse ciclo. A violência por Wi-Fi também é violência doméstica. E como toda violência, precisa ser nomeada, enfrentada e combatida — inclusive com informação. O amor deve libertar, não prender. Deve acolher, não controlar. E deve respeitar, inclusive — e principalmente —, no ambiente digital.
Dra. Claudia Cavalcante
Advogada OAB/SP 468.550
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