Semana passada, “Quarto de Despejo” completou 65 anos de sua publicação. Traduzido para diversos países, o livro se tornou um clássico da nossa literatura, em especial de autoria negra-feminina. Me lembrei, então, do curta-metragem “O papel e o mar”, dirigido por Luiz Antonio Pilar. Ele tematiza um encontro ficcional entre João Cândido e Carolina Maria de Jesus, duas personalidades históricas essenciais para o movimento negro no Brasil. Com duração aproximada de 13 minutos, esses dois personagens se encontram no centro do Rio de Janeiro no dia 2 de maio de 1958 e refletem sobre qual é a experiência negra no país. Além disso, o livro busca mostrar a razão da retomada da escrita de Carolina Maria de Jesus em seu primeiro livro, cujas primeiras páginas são situadas em 1955 e, após 3 anos, ele continua.
João Cândido, interpretado por Zózimo Bulbul, já não é tão jovem quanto foi durante a Revolta da Chibata, movimento que liderou na Marinha durante a Primeira República. Apesar de se entender como um herói, ele entende que pagou um preço muito alto para que nenhum marinheiro sofresse castigos físicos. No filme, ele diz: “fui exilado de mim mesmo”. Ele trabalha como vendedor de peixes e, enquanto esperava a carga chegar do mar, encontra uma mulher que catava papel.
Essa mulher, preta como ele, era Carolina Maria de Jesus, autora brasileira que ficou internacionalmente reconhecida pela publicação de “Quarto de Despejo” (1960), além de ter publicado outras obras, como “Diário de Bitita” (1982), “Casa de Alvenaria” (2021) e “O escravo” (2024). Na cena, ela tinha acabado de encontrar um caderno com as folhas em branco, mas João a criticou, dizendo que papel já não dava mais dinheiro, enquanto ela respondeu que o papel era sua vida. A partir daí, os dois personagens começam a conversar e acabam tendo diversos conflitos, que envolvem visões de mundo diferentes e também suas histórias pessoais.
Em um dos momentos mais impactantes da história, após Carolina ter revelado o sonho de escrever seu diário, que durou apenas 14 dias, Candido a chama de indolente, mas ao invés de ouvi-la, ele lhe oferece um caderno e um lápis e ela escreve: “2 de Maio de 1958. Eu não sou indolente. Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário. Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo.”. Ao ler, Cândido diz que se fosse perda de tempo, ele poderia rasgar aquela folha e assim o fez. Carolina fica transtornada com o que ele fez, mas ele risca a página seguinte do caderno e mostra que tudo que ela tinha escrito ainda estava lá, e completa: “Não adianta rasgar as páginas da história. Não adianta passar a borracha naquilo que já está escrito. A palavra escrita no papel tem vida. Você pode fazer o que quiser, mas ela nunca deixará de existir.”.
Relembrar essas personalidades e, sobretudo, juntá-los na cena é uma reparação. Eles foram duas pessoas importantes para a história do Brasil, mas tiveram suas vozes silenciadas por muito tempo. Ao colocá-los lado a lado, O Papel e o Mar recupera o que a memória oficial tentou apagar: a força de uma escrita que nasce da experiência marginalizada e a dignidade de uma luta que enfrentou as estruturas de poder.
Esse gesto dialoga com o princípio africano Sankofa, que ensina que é preciso retornar ao passado para resgatar aquilo que nele foi esquecido ou negado, a fim de construir um presente e um futuro mais justos. A cena em que Carolina reafirma a importância da palavra escrita e João Cândido reconhece que não é possível “rasgar a história” é, portanto, um convite à memória como resistência.
Ao revisitarmos esses nomes, somos lembrados de que a literatura e a luta não pertencem apenas ao passado: elas permanecem como sementes de transformação. Como em Sankofa, olhar para trás é condição para avançar.
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