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Segunda-feira, 20 de Abril de 2026
LULA NÃO ERROU!

Nego Dan

LULA NÃO ERROU!

Dizer que traficantes são vítimas de usuários não é um erro de Lula — é a forma como ele enxerga o mundo

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Estava demorando, mas chegou a hora de ele soltar uma pérola. Se alguém me contasse e eu não tivesse visto, talvez nem acreditasse, de tão absurdo o que foi dito. O presidente Lula, aos seus 80 anos de idade, parece encontrar cada vez mais dificuldade em conter as palavras. O presidente brasileiro, que está no Sudeste Asiático para uma série de encontros com o objetivo de ampliar negociações com países da região e, inclusive, participar da esperada reunião com Donald Trump, não se conteve e falou demais. Como diria minha avó: “Quem fala demais dá bom dia a cavalo.”

Diante da escalada das forças militares americanas no Caribe, especialmente nas costas venezuelanas e colombianas, sob o argumento de combater o narcotráfico da região, Lula foi questionado sobre a delicada situação de seu companheiro Maduro. O presidente não mediu esforços para defendê-lo, com um discurso de soberania nacional — e até aí tudo bem, já que os EUA, por meio de seu presidente, têm tomado decisões arbitrárias, tentando intervir na soberania de vários países da América Latina, inclusive o Brasil. Portanto, o que Lula não deseja para o Brasil, não pode desejar para seus vizinhos. Até esse ponto, sua fala mantinha certa coerência.

Porém, ao seguir seu raciocínio, Lula resolveu fazer uma análise mais detalhada daquilo que, em sua cabeça, realmente acontece no comércio ilegal de drogas. Disse ele:

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“Toda vez que a gente fala em combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil combater nossos viciados internamente, os usuários. Os usuários são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também.”

E acrescentou:

“Ou seja, você tem uma troca: gente que vende porque tem quem compre, e gente que compra porque tem quem venda.”

Um verdadeiro absurdo dito pelo nosso chefe de Estado. Confesso que, assim que ouvi a fala de Lula, imaginei que, no prazo máximo de dois dias, um pedido de desculpas seria feito. Me enganei! Horas depois, a assessoria do governo já havia montado uma força-tarefa para tentar limpar a sujeira causada pelo presidente. A oposição rapidamente aproveitou o deslize para atacar o governo — e aí veio a grande questão: Lula errou?

Confesso que, num primeiro momento, achei que sim. Porém, analisando melhor, percebi que, embora absurdo, não foi um erro — é apenas o reflexo da forma como ele vê o mundo. Lula é o mesmo presidente que já afirmou que “bater em mulher em dia de jogo do Corinthians é aceitável”; que “os jovens estão por aí roubando celular para tomar cerveja”; e que “afrodescendentes servem para fazer batuque”.

Em uma entrevista concedida ao podcast Mano a Mano, antes da eleição de 2022, Mano Brown perguntou a Lula por que havia ausência de negros na alta cúpula do PT e em seus governos. A resposta de Lula foi, no mínimo, infeliz:

“Precisamos levar em conta que a política, nesse país, era uma coisa branca mesmo. As profissões mais eloquentes e rentáveis, brancas. A direção do PT tinha uma maioria branca.”

De lá pra cá, o que mudou em seu terceiro governo — e na direção do PT? Nada.
A alta cúpula do partido continua branca, a elite das profissões mais rentáveis continua branca, e as escolhas de lideranças para ministérios e para o STF continuam predominantemente brancas. Esse governo, que se diz progressista, mostra-se mais conservador do que nunca.

Logo após oferecer um prato cheio à oposição com essa fala absurda, o presidente publicou no X (antigo Twitter):

“Fiz uma frase mal colocada... Mais importante do que as palavras são as ações que o meu governo vem realizando.”

Mas a pergunta que fica é: quais ações?

Lula afirmou nesta semana que, aos 80 anos, será candidato nas eleições de 2026. Todos sabemos que ele corre praticamente sozinho, sendo franco favorito a um quarto mandato como presidente do Brasil. Com isso, o PT ultrapassará duas décadas no poder executivo. E todos sabem que o crime organizado só cresce. Não é porque o Ministério da Justiça encaminhou ao Congresso uma PEC de segurança pública — que sequer foi aprovada — que o governo pode se vangloriar de enfrentar o crime organizado.

Esse mesmo governo já recebeu pessoas ligadas a facções criminosas em seus gabinetes. Quem não se lembra quando Luciane Barbosa Farias, esposa de “Tio Patinhas”, um dos chefes do Comando Vermelho, visitou o Ministério da Justiça? Este governo sempre teve muita dificuldade em desassociar sua imagem do crime organizado.

Em uma participação minha em um podcast do Portal Dois Pontos, afirmei que, neste ano eleitoral, tanto a direita quanto a esquerda usariam o discurso de combate ao crime organizado para atrair votos. Apostariam em falas populistas, tentando anestesiar o povo — e é exatamente o que está acontecendo.

Você, que está lendo esta coluna, provavelmente mora em uma quebrada dominada pelo crime organizado, onde o tráfico de drogas atua à luz do dia. Se os criminosos dizem que é proibido som alto, todos obedecem. Se dizem que é proibido estourar escapamento de moto, todos obedecem. Enquanto o Estado impõe leis que ninguém cumpre, o crime organizado atua com eficácia.

Por fim — e talvez o mais grave — fico imaginando um pai ou uma mãe que vê seu filho perdido nas drogas e ouve o presidente da República, em vez de oferecer apoio moral, tratamento, políticas públicas de saúde e combate ao tráfico, afirmar que o traficante é vítima do usuário.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Internet
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Nego Dan

Publicado por:

Nego Dan

Barbeiro, cristão afrodescendente, formado em educação física e professor de boxe

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