Na última quinta-feira (29), o cantor MC Poze do Rodo foi preso, acusado de apologia ao crime e ligação com o tráfico de drogas. Dentro da prisão, o cantor se declarou ligado à facção criminosa Comando Vermelho e pediu transferência para a ala onde essa facção é maioria. A defesa do cantor alega que o pedido foi feito por motivos de segurança e que isso não significa, necessariamente, que ele tenha, de fato, ligação com o crime. Porém, com a prisão do cantor, o que nós realmente devemos refletir?
No final dos anos 60, Wilson Simonal cantou que morava em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Mesmo assim, foi criticado por grande parte da população, que vivia sob a sombra do autoritarismo da ditadura, somada à fome e à miséria. Nos últimos anos, no entanto, uma série de fatores tem impulsionado a grande mídia a colocar em destaque um novo slogan: "A favela venceu." Letras de rap, trap e funk utilizam essa frase quase como um mantra em suas músicas. Mas como isso começou?
Precisamos entender o tipo de entretenimento a que a população pobre teve acesso. A geração que cresceu nos anos 80 e 90 tinha, em praticamente todas as casas, uma televisão com, ao menos, uma antena “escama de peixe” para assistir à sua novela e ao futebol, considerados sagrados. Em grande parte das novelas, o vilão era, geralmente, um rico, enquanto o pobre era retratado como uma pessoa alegre, engraçada e que pouco reclamava da vida. Nos jogos de futebol, quem frequentava os estádios eram, em sua maioria, os pobres — sempre felizes por ver seu time do coração, ainda que transmitido por grandes emissoras de televisão.
Com isso, nasceu um fenômeno chamado "glamourização da pobreza", no qual a grande mídia tenta mostrar que um coletivo de pessoas vivendo sem saneamento básico, sem educação de qualidade, sem direito ao lazer, cercadas pelo tráfico de drogas e que, aos finais de semana, não conseguem dormir em paz por causa do som alto nas ruas, são, mesmo assim, felizes. O mais curioso é que esse fenômeno se renova de tempos em tempos. Antes eram as novelas e o futebol; hoje, são artistas e políticos, com muito dinheiro, que “sobem” a quebrada para tirar fotos, fazer campanhas, gravar clipes... e depois “descem” de volta para o conforto de seus lares.
Tudo indica que o próximo passo será a liberação da venda e do consumo de drogas. Já não basta o álcool — que há décadas destrói famílias nas periferias —, agora teremos a maconha, a cocaína e outros entorpecentes sendo consumidos com naturalidade.
O mais interessante dessa prisão é observar também o diferente tratamento dado a um favelado que ganha dinheiro, mas comete um erro. Não quero entrar no mérito jurídico da culpa ou inocência — até porque não tenho essa competência —, mas vimos MC Poze do Rodo sendo preso, algemado, sem camisa, descalço, forçado a andar de cabeça baixa, sem oferecer resistência e sem apresentar risco, cercado por policiais do mais alto preparo. Uma cena que remete à forma como escravos eram tratados ao cometerem algum "erro".
Por outro lado, o influenciador digital e empresário fitness Renato Cariani, réu em um processo em que é acusado de tráfico de drogas, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro, nunca foi preso e continua livre, dando dicas na internet sobre como "vencer na vida". E se falarmos do ex-deputado Roberto Jefferson — que já havia sido preso em 2014 por corrupção e lavagem de dinheiro —, ele resistiu a um mandado de prisão da Polícia Federal com tiros de fuzil e granadas contra os agentes, e mesmo assim, após sua prisão, teve prisão domiciliar concedida por decisão do STF.
O que vemos aqui são tratamentos completamente opostos da justiça brasileira, que deixam claro: você pode ganhar o dinheiro que for, mas se for favelado, preto ou pardo, sua margem de erro é zero.
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