No dia 8 de março, dia mundial das mulheres, criado há mais de um século por trabalhadoras que morreram por direitos básicos e que até hoje ainda é data de luta e não de celebração, uma trend explodiu nas redes sociais. A frase nos vídeos dizia: "Treinando para caso ela diga não" e nos vídeos homens simulavam chutes, socos e até facadas. Acho que não só eu, mas muitas outras mulheres viram esses vídeos com dor.
Alguns dias atrás mesmo Alana Anísio Rosa, de 20 anos, recusou namorar um homem porque queria priorizar os estudos, ela foi educada e rejeitou um cara que ela quase não conhecia. Ele não feliz com a rejeição entrou em sua casa e a atacou com mais de 30 facadas. Sua mãe a encontrou quase sem vida. E não é difícil ver casos assim. Todo mundo conhece alguém que passou por alguma situação, no mínimo constrangedora, por recusar alguém. E com certeza todo mundo conhece alguém vítima de violência. Muitas vezes até feminicídios.
No mesmo fim de semana em que a trend viralizou, Maria Niuzete Batista, de 55 anos, recepcionista de um hotel em Curitiba, recusou um beijo de um hóspede que havia passado a noite bebendo na recepção. Ele pulou o balcão, a perseguiu pelos corredores e a agrediu com socos, chutes e uma saboneteira de porcelana quebrada na cabeça até ela perder a consciência. "Ele falava que ia me matar", contou ela depois em entrevista. "Eu só pedi a Deus: não quero morrer agora." O agressor foi preso por tentativa de homicídio qualificado. Esses não são casos isolados, fazem parte do cotidiano.

Eu mesma já vi vários casos, desde vizinha que apanhava do marido, até outra que foi queimada viva pelo esposo. Já perdi uma grande amiga esfaqueada por um cara "da sua família" que não aceitou a rejeição dela. E já passei por situações de perseguição e violência também. Todas nós já passamos por algo, ou conhecemos alguém que já passou. A violência contra a mulher é normalizada e incentivada.
Se olharmos os números de 2025, é ainda mais assustador. O Brasil registrou 1.470 feminicídios, uma média de quatro mulheres mortas por dia só por serem mulheres. Só em São Paulo foram 270 casos, alta de 96,4% em relação a 2021 e o maior número desde que a série histórica começou a ser registrada. As denúncias de crimes online de misoginia cresceram 220% entre 2024 e 2025, segundo a SaferNet, que registrou 8.728 ocorrências só no último ano. E esses são apenas os casos denunciados.
Esses casos sempre aconteceram e os números vão continuar aumentando conforme mais é falado e mais mulheres denunciam, mas um outro fenômeno vem acontecendo na internet e entrando na cabeça dos jovens: os movimentos misóginos, como o movimento red pill. O que vem acontecendo é uma onda de ódio às mulheres, apenas por serem mulheres. Esses grupos juntam homens que colocam a culpa de vários relacionamentos apenas nas mulheres e generalizam todas sob a mesma ótica.
O nome vem do filme Matrix, na trilogia, o protagonista Neo, interpretado por Keanu Reeves, precisa escolher entre duas pílulas: a azul, que o mantém em um mundo de ilusões, ou a vermelha, que revelaria a realidade. No vocabulário do movimento, "tomar a pílula vermelha" significa despertar para um suposto sistema que favorece as mulheres e prejudica os homens. Parte do grupo defende que homens não devem se casar ou namorar, apenas manter relações sexuais, como forma de se proteger do que chamam de oportunismo feminino.
O ecossistema reúne comunidades com diferentes graus de radicalização: os incels, que culpam mulheres pela própria solidão e chegam a endossar violência abertamente; os MGTOW, que pregam afastamento total de relacionamentos; os PUAs, que tratam mulheres como alvos a conquistar com técnicas de manipulação. O discurso costuma começar com conteúdo de autoajuda e fitness, migra para pseudociência sobre a "natureza feminina" e termina em desumanização.
Diversos desses vídeos da trend que citei no começo do texto seguem o mesmo padrão e têm as mesmas pessoas comentando. É uma rede extensa de homens que acham que odiar mulheres é a solução para seus problemas. O que acontece psicologicamente é que o movimento captura homens genuinamente vulneráveis, jovens que sofrem com solidão, pressão social e falta de referências, e canaliza esse sofrimento real para fora, transformando dor em ressentimento e ressentimento em ódio direcionado. O movimento não cria a dor, mas usa ela como ferramenta de manobra. Em vez de oferecer suporte, oferece um culpado. Em vez de ajudar o homem a se entender, ensina ele a se defender de um inimigo que não existe.

E tem gente lucrando com isso. Oitenta por cento dos canais com conteúdo misógino utilizam alguma forma de monetização, segundo levantamento do NetLab da UFRJ com o Ministério das Mulheres. Cursos, mentorias, comunidades pagas, canais com assinatura mensal. A pesquisa da FGV monitorou 85 comunidades virtuais de ódio e identificou crescimento de quase 600 vezes no envio de conteúdo misógino entre 2019 e 2025. O ressentimento masculino virou produto com a ajuda das redes sociais.
Outra coisa que vem acontecendo cada vez mais com frequência são as deepfakes. Com inteligência artificial, qualquer mulher pode ter o rosto inserido em um vídeo pornográfico sem ter feito nada além de existir e ter fotos na internet. Um estudo da Universidade de Oxford analisou quase 35 mil ferramentas de IA disponíveis para download e constatou que 96% do conteúdo gerado é de imagens femininas.
Hoje, com menos de cem reais, é possível criar um vídeo falso em quinze minutos usando cerca de vinte fotos de referência. Em 2024, um grupo com 46 mil membros vendia deepfakes de mulheres brasileiras por valores entre R$19,90 e R$25. Ataques com deepfakes cresceram 126% no Brasil em 2025, e a SaferNet identificou 173 vítimas de deepfakes sexuais só em escolas de dez estados brasileiros, todas mulheres, entre alunas e professoras.
Imagina acordar todo dia sabendo que uma recusa educada, um "não tenho interesse", pode custar a sua vida. Muitas de nós vivemos isso e quase sempre nunca contamos para ninguém. Um homem que não aceita um não não é apaixonado, ele é perigoso. E quando esse homem encontra uma comunidade inteira validando essa incapacidade, dando nome bonito pra ela e vendendo curso sobre isso, o perigo escala para onde não podemos controlar.
Mas ainda bem que existem pessoas que estão vendo isso com a gravidade que o assunto exige, e que entendem que quem lucra com esse ódio também precisa ser responsabilizado. Uma parte da resposta está chegando pelo Congresso. A deputada Duda Salabert (PDT-MG) apresentou uma proposta que tornaria crime organizar ou incitar movimentos misóginos como o red pill, com pena de um a quatro anos de prisão. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) quer ir além: sua proposta obriga as plataformas a cortar a monetização desse tipo de conteúdo, ou seja, quem ganha dinheiro espalhando ódio contra mulheres passaria a responder por isso.
No Senado, a senadora Ana Paula Lobato (PDT-MA) tem duas frentes abertas. A primeira quer incluir a misoginia na Lei do Racismo, tornando o ódio contra mulheres um crime com pena prevista, como já acontece com o racismo. Essa proposta foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça em dezembro de 2025, mas está travada por recurso do senador Eduardo Girão (Novo-CE), que curiosamente é também o relator da segunda proposta da senadora, que cria uma Política Nacional de Combate à Misoginia com ações de prevenção, proteção às vítimas e punição.

O senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR) também tem uma proposta em tramitação para tipificar a misoginia no Código Penal. E a sociedade civil se moveu também: a psicóloga e professora da Universidade de Brasília Valeska Zanello submeteu uma sugestão no portal e-Cidadania, um canal oficial onde qualquer cidadão pode propor leis ao Senado, que reuniu mais de 23 mil apoios e virou o PL 2.882/2023, hoje em análise na Comissão de Direitos Humanos. A senadora Teresa Leitão (PT-PE) também propõe um protocolo nacional para enfrentar a misoginia dentro das escolas, protegendo alunas e professoras.
Em abril de 2025, o Brasil alterou o Código Penal para responsabilizar quem usar inteligência artificial para manipular imagem ou voz de mulheres como forma de violência. A Polícia Federal abriu inquérito sobre a trend "caso ela diga não" no dia seguinte ao da viralização, e a Câmara vota esta semana um requerimento pedindo à Procuradoria-Geral da República que investigue os responsáveis.
A lei precisa avançar, mas ela ainda não apaga essa comunidade e esse movimento e não impede que um adolescente de 14 anos passe horas consumindo conteúdo que ensina que mulher merece ódio e punição. Enquanto isso não mudar, a pergunta continua sem resposta: será que um dia estaremos seguras? Será que um dia podemos dizer não e ser livres?

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