O mês da mulher começou e, junto com ele, vieram as flores, os posts de empoderamento e as campanhas de marcas que vendem produtos com discurso feminista. Mas o cotidiano continua sendo o lugar onde uma mulher precisa justificar por que ainda gosta de determinada música, por que tem um organizador cor-de-rosa na mesa ou por que sabe mais de política do que a pessoa que achou que podia descartá-la de uma conversa.
Existe uma lista não escrita de coisas que uma mulher adulta não pode gostar. Ninguém entrega essa lista formalmente, mas todo mundo sabe que ela existe. E o mais interessante é que essa lista não tem lógica nenhuma, a não ser a de controlar.
Um homem pode viajar o país inteiro atrás do time de futebol dele. Pode faltar trabalho, gastar dinheiro, pintar o rosto, gritar no estádio, xingar árbitro, chorar com gol. Tudo isso é paixão. É bonito até. Agora uma mulher que viaja pra ver um show de um grupo de k-pop é histérica. É louca. É imatura. É gente que não tem o que fazer da vida. O ingresso custa o mesmo. O avião é o mesmo. A emoção de ver ao vivo algo que você ama é exatamente a mesma. O que muda é o julgamento, e o julgamento muda porque muda o gênero de quem está sentindo.
Um homem pode jogar videogame dos 15 aos 50 anos e isso vai sendo incorporado à identidade dele como algo legítimo, quase admirável. Pode colecionar cartas de Pokémon, action figures, miniaturas de carro. É colecionador. É entusiasta. Tem até documentário sobre isso. Uma mulher que coleciona photocards de artistas que admira é infantil. Não cresceu. Tem problema. E se ela tiver mais de 30, aí a situação piora numa proporção que assusta: de repente o hobby vira sintoma. Sintoma de que ela fracassou em alguma coisa, que ela está fugindo de alguma responsabilidade que deveria ter assumido, que a vida dela deve estar vazia para sobrar tempo pra isso.
Ninguém pergunta se o homem de 45 anos com a coleção de álbuns de figurinha está bem resolvido com a vida. Ninguém precisa perguntar. Porque o hobby dele nunca foi usado contra ele.
E quando a mulher decide gostar das mesmas coisas que os homens, achando que assim vai escapar do julgamento, descobre que não tem saída por esse caminho também. Gosta de futebol? Então prova. Qual foi o último jogo? Qual a posição do time na tabela? Quem é o técnico? Existe um interrogatório informal que nenhum homem precisa passar para ser aceito como torcedor, mas que qualquer mulher conhece de cor. O conhecimento dela precisa ser verificado antes de ser reconhecido. O dele é assumido como padrão.
O mesmo acontece com política, com tecnologia, com qualquer território que foi ocupado historicamente por homens e que eles, no fundo, ainda acham que é deles.
Então o que sobra? Gostar de coisa considerada feminina e ser infantilizada. Gostar de coisa considerada masculina e ser testada. Ter mais de 30 e gostar de qualquer coisa fora do script esperado e ser desqualificada por completo. O problema nunca foi o hobby. O problema é que uma mulher ousou ter prazer em alguma coisa sem pedir licença.
O etarismo entra aqui como um tempero amargo. A ideia de que existe uma data de validade para os gostos femininos, que depois dos 30 uma mulher precisa se comportar (seja lá o que isso signifique), não existe com a mesma força para os homens. Para eles, envelhecer acumula: respeito, autoridade, espaço. Para as mulheres, a conta costuma ser diferente. A passagem do tempo subtrai permissões que, na verdade, nunca foram dadas direito.
Nenhum gosto precisa de explicação. Nem hoje, nem amanhã, nem depois que o mês de março acabar e as campanhas de empoderamento sumirem das timelines.

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