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Quarta-feira, 13 de Maio de 2026
O modelo falido de homem

Dani Almeida

O modelo falido de homem

Por que a masculinidade que ataca sensibilidade prejudica os próprios homens?

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No BBB 26, Jonas Sulzbach escolheu uma estratégia antiga para atacar Juliano Floss.
Chamou o dançarino de "loirinha" e disse que ele tem "progesterona" em vez de
"testosterona". A intenção era clara: tentar diminuir Juliano associando-o ao feminino, como
se isso fosse algo negativo.
Essa forma de ataque revela muito sobre um tipo de masculinidade que está em crise.
Durante anos, homens foram ensinados que expressar emoções é fraqueza, que dançar é
coisa de mulher, que ser sensível é problema. Juliano Floss desafia essas regras. Ele
dança, se expressa, é carinhoso com a namorada e mantém relações próximas com
mulheres. E é justamente isso que incomoda.
Especialistas explicam que proibir alguém de expressar emoções produz respostas
extremas e distorcidas. Quantos homens justificam violência contra mulheres em nome do
amor? O problema é que foram socializados para ter um repertório pobre de expressão
afetiva. Quando sentimentos não podem ser nomeados e vividos de forma saudável,
explodem de jeitos violentos.

A verdade desconfortável é que essa masculinidade rígida machuca todo mundo, inclusive
os próprios homens. Eles ficam presos em uma performance constante de dureza. O
resultado são índices altíssimos de suicídio masculino e uma solidão crônica que muitos
homens carregam em silêncio.
Juliano representa uma ameaça a esse sistema porque mostra que é possível ser homem
de outro jeito. Ele conquista o respeito de mulheres por ser alguém agradável de ter por
perto. Isso expõe a fragilidade do modelo tradicional. Se um homem pode ser respeitado
sendo sensível e expressivo, para que serve toda aquela rigidez?
Jonas, ao atacar Juliano com feminilização, está operando dentro de uma lógica antiga: a
de que ser comparado a uma mulher é a maior ofensa possível para um homem. Essa
lógica é misógina na raiz. Ela só funciona se acreditarmos que o feminino é inferior. Quando
Jonas chama Juliano de "loirinha" esperando ofendê-lo, está dizendo que mulheres são
menos. E quando isso não funciona, quando Juliano não se abala, o modelo inteiro
desmorona.

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"Jonas, você é o modelo falido de homem, caiu em desuso, sinto muito." A frase de Marina
Sena, namorada de Juliano, viralizou porque nomeou com precisão o que estava
acontecendo. Para além de defender seu parceiro, ela também evidencia um problema
maior: uma masculinidade que realmente falhou em criar homens felizes e saudáveis.
O movimento que tenta manter a todo custo uma masculinidade única, os discursos "red
pill" e grupos como os Legendários, revelam desespero. A necessidade de controlar
rigidamente como um homem deve se comportar demonstra fragilidade. Homens
verdadeiramente seguros de si não precisam atacar quem faz diferente.
As mulheres já perceberam isso há tempos. Elas querem parceiros que saibam conversar e
expressar afeto. Querem homens como Juliano, que podem ser fortes sem precisar provar
força o tempo todo.
O machismo aprisiona homens em papéis sufocantes que impedem o desenvolvimento
pleno da personalidade. Quando atacam homens que eles mesmo nomeiam como
afeminados por ser expressivo, estão dizendo a todos os meninos que assistem que eles
precisam caber em uma caixa apertada e já moldada pela sociedade. Muitos vão passar a
vida inteira tentando caber, construindo uma masculinidade que os deixa infelizes.
A boa notícia é que o modelo está mesmo caindo em desuso. Cada vez mais homens
jovens questionam essas imposições e buscam formas mais saudáveis de ser. Juliano não
é exceção, é parte de uma geração que entendeu que masculinidade pode ser plural e
incluir sensibilidade sem deixar de ser legítima.
O desconforto de Jonas e de quem o defende não é com Juliano especificamente. É com a
percepção de que o mundo mudou e eles não acompanharam. Marina tinha razão: é um
modelo completamente falido. E quanto mais tentam se agarrar a isso atacando quem faz
diferente, mais expõem a própria obsolescência.

O machismo prejudica mulheres de formas óbvias e violentas, e isso é tema para outro
artigo, mas ele também destrói homens por dentro, impedindo que vivam com plenitude
emocional. Quando homens não têm medo de chorar na televisão sem se importar com
julgamentos ou expressar carinho pela namorada publicamente, assim como o Juliano, que
está mostrando um caminho onde homens podem finalmente respirar fora dessa armadura
sufocante.
E esse caminho assusta quem construiu toda a identidade em cima do modelo antigo.
Porque se Juliano pode ser homem desse jeito e ser respeitado, então todos aqueles anos
tentando provar masculinidade através de rigidez foram desperdício.O modelo não está
apenas falido. Está em processo de extinção. E os gritos desesperados tentando mantê-lo
vivo só aceleram sua queda.

 

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): TV Globo
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Dani Almeida

Publicado por:

Dani Almeida

Jornalista e estudou Ciências Sociais na UNIFESP. Escreve sobre comunicação, cultura pop, especialmente a asiática, além de entretenimento, esportes e sociedade.

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