Se você, assim como eu, sentiu que o feed do Instagram virou uma máquina do tempo direto para 2005, não está sozinho. A estética Heroin Chic (aquela magreza extrema dos anos 90) e a moda Y2K voltaram, mas dessa vez o cenário é mais complexo e perigoso. O que antes era "apenas" uma tendência de passarela, em 2025 se transformou em um problema de saúde pública e segurança.
Vamos ser honestos: a magreza nunca saiu de moda, mas a forma como ela está sendo consumida e vendida agora atingiu um nível crítico. E não sou só eu dizendo isso; os dados mostram que estamos vivendo uma tempestade perfeita.
Esqueça a influência das revistas impressas. Hoje, quem dita o padrão é o algoritmo, e não se trata de coincidência, mas de programação. Um relatório alarmante do Center for Countering Digital Hate (CCDH) revelou que o TikTok chega a recomendar conteúdos ligados a transtornos alimentares em menos de 10 minutos de uso para contas novas.
No Instagram, a situação é similar: documentos internos vazados no escândalo dos Facebook Files admitiram que a própria empresa sabia que a rede 'piora a imagem corporal de uma em cada três adolescentes'. Essa entrega viciada de conteúdo cria uma 'monocultura estética': você entra para ver um vídeo de humor e, instantes depois, é bombardeado por corpos inatingíveis, validando a magreza extrema como a única realidade possível. Isso gera o que chamamos de efeito de repetição: a exposição constante normaliza o extremo. A moda, claro, surfou nessa onda. As Semanas de Moda de 2024 e 2025 trouxeram de volta modelos com medidas que não víamos há uma década, sinalizando que a era do body positive pode ter sido, infelizmente, apenas um intervalo comercial.
Mas o buraco é mais embaixo. A pressão para atingir esse corpo inatingível cruzou a linha da estética e dados recentes do Google Trends colocam o Brasil como o segundo país no mundo que mais busca por termos como 'Ozempic' (da fabricante Novo Nordisk) e 'Mounjaro' (da Eli Lilly), ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Essa curiosidade digital massiva reflete um comportamento de consumo desenfreado que pressiona os estoques das farmácias e inflaciona os preços, transformando medicamentos para diabetes em artigos de luxo estético, criando um mercado paralelo assustador.

Em São Paulo, as farmácias viraram alvos de quadrilhas especializadas. Não estamos falando de pequenos furtos, mas de operações de crime organizado. Segundo investigações do DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais), farmácias de São Paulo tornaram-se o novo alvo preferencial de quadrilhas, desbancando até o roubo de eletrônicos em alguns setores. Em um caso emblemático na Zona Sul, amplamente noticiado, criminosos levaram cerca de R$ 80 mil em canetas emagrecedoras em uma ação relâmpago, que durou menos tempo do que um stories.
Os números da Secretaria de Segurança Pública (SSP) dão a dimensão do problema: entre janeiro e setembro de 2025, mais de 60 pessoas foram detidas por envolvimento direto nesses roubos. O objetivo é claro: revender no mercado negro para quem não tem receita ou não quer pagar o preço de balcão, ignorando riscos sanitários graves.
Quem compra "por fora" corre um risco de vida real. Essas canetas precisam de refrigeração rigorosa. O produto roubado, transportado em porta-malas quentes e armazenado de qualquer jeito, muitas vezes chega ao consumidor estragado ou pior, falsificado. Você paga caro para injetar algo que pode não fazer efeito nenhum ou te mandar para o hospital.
Enquanto o mercado paralelo lucra, a saúde mental paga a conta. Nos consultórios, o reflexo é imediato e preocupante. Entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e núcleos de psicologia têm alertado para uma explosão de casos de dismorfia corporal e transtornos alimentares. O cenário é impulsionado por uma comparação desleal: jovens e adultos tentam alcançar, via dieta ou exercício, um padrão estético que, na tela do celular, muitas vezes é resultado de intervenções medicamentosas potentes. Cria-se um ciclo de frustração onde o corpo real nunca é suficiente diante do corpo 'ozempizado' do influenciador.
A sensação de inadequação hoje é onipresente. O retorno desse ideal de magreza reafirma a ideia arcaica de que o corpo é um marcador de valor social. Se você é magro, você é "disciplinado", "saudável", "bem-sucedido". Se não é, a sociedade te lê como "falho". Isso afeta contratações, relacionamentos e a forma como nos movemos no mundo.
Precisamos encarar a realidade e ver que o desejo que sentimos ao ver essas imagens não é orgânico, nem natural. Ele é manufaturado. Vivemos no que a sociologia crítica identifica como a mercantilização da vida: o corpo deixou de ser apenas biologia para virar vitrine e capital. Existe uma indústria bilionária que opera na lógica de criar a doença para vender a cura.
Primeiro, a moda, a publicidade e o algoritmo nos convencem de que somos inadequados, gerando uma insatisfação crônica (o problema fabricado). Em seguida, a indústria farmacêutica e estética nos oferece a injeção, o creme ou o procedimento (a solução comprada). Lucra-se com a nossa insegurança, transformando a autodepreciação em um dos modelos de negócios mais rentáveis e cruéis do capitalismo atual. Aceitar o próprio corpo hoje é, acima de tudo, um ato de resistência (claro, o mais importante é estar saudável e não cair em nenhum extremo).
A pergunta que fica é: vamos continuar comprando essa ideia (literalmente e metaforicamente) ou vamos começar a questionar quem ganha quando a gente se odeia?