O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) está encerrando hoje a exposição A ecologia de Monet, que trouxe ao Brasil obras inéditas no hemisfério sul do pintor francês Claude Monet (1840-1926). Pai do impressionismo, Monet revolucionou as artes plásticas, mas foi incompreendido em seu tempo. Suas pinceladas suaves, que brincavam com as luzes, estavam distantes do padrão realista da arte daquele período.
O próprio nome desse movimento artístico nasceu da crítica. O jornalista Louis Leroy descreveu uma das telas de Monet como “mal acabada” e sem detalhes, reduzindo-a a uma simples “impressão”. A palavra, usada de forma pejorativa, acabou batizando uma das maiores revoluções da história da pintura. Essa crítica expressa todo pensamento artístico daquela época: era necessário seguir as regras para produzir Arte. Diante desse pensamento, Monet viveu tempos difíceis em sua vida devido à falta de dinheiro e de reconhecimento, chegando a quase desistir de pintar.
É necessária coragem para enfrentar os modelos artísticos de uma época e revolucionar a história da arte para sempre. Sendo uma das das sete Artes, a Literatura também passou (e passa) por percursos similares de mudança. Na última semana, a professora aposentada da USP Aurora Bernardini escreveu, em sua coluna na Folha, que os autores Annie Ernaux, Elena Ferrante e Itamar Vieira Jr. – entre os mais vendidos no Brasil – não produzem literatura. Esses três autores contemporâneos escrevem livros que não possuem uma preocupação com a forma em que a língua se expressa nas narrativas – ou pelo menos, não do modo que ela julga ter um rigor formal.
Mas Ernaux venceu o Nobel de Literatura em 2022; Elena Ferrante conquistou milhões de leitores, aparecendo na lista do The New York Times dos 100 melhores livros do século XXI; Itamar Vieira Jr. coleciona Jabutis e é um dos autores brasileiros mais importantes da contemporaneidade. A questão, no fim, não é sobre o que é literatura, mas sim qual a recepção que temos daquilo que novo.
Esse é um padrão que é visto não só apenas na Arte, mas também na política, na ciência… Monet, chamado de “pintor mal-acabado”, virou clássico: lotou como nunca o MASP. Talvez a literatura de Ernaux, Ferrante e Vieira Jr. também seja julgada de outra maneira no futuro, como já é pela grande massa dos seus leitores. A Arte, afinal, não cabe nos limites que tentam impor a ela – e aí que mora a sua força.