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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026
Depois de Sete Vidas, decidi ser doador de órgãos

Jorge Henrique Ramos

Depois de Sete Vidas, decidi ser doador de órgãos

Como um filme me fez enxergar a doação de órgãos como um gesto de amor e um ato político

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Foi numa noite qualquer, dessas em que a gente só quer desligar a mente por uns minutos, que assisti a um filme que mudou o curso do meu pensamento e, talvez, da minha vida. Isso lá pelos meus 15 anos de idade.

Como fã assíduo do Will Smith, resolvi pesquisar alguns trabalhos menos ovacionados dele. Bad Boys, Eu, Robô, Homens de Preto, Eu Sou a Lenda… todos esses eu já tinha assistido mais vezes do que o SBT reprisou As Aventuras de James West.

Foi aí que encontrei o longa Sete Vidas, lançado em 2008. O filme não é só um drama emocionante. Ele começa te pegando pela curiosidade:
“Que que esse mano tá fazendo? Onde ele quer chegar?”

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E quando você menos espera, tá ali, sendo convidado, silenciosa e urgentemente, a repensar suas atitudes diante da dor, da perda e, principalmente, da generosidade.

Ao longo do filme, acompanhamos Tim Thomas (Will Smith), um homem que carrega uma culpa insuportável e decide transformar sua dor em vida para outras pessoas. Literalmente.

(Aviso de spoiler, tá? O filme já tem quase 20 anos, então se quiser pausar aqui e assistir antes, fique à vontade. Depois volta aqui.)

Tim se passa por um fiscal do governo, averiguando o dia a dia de sete pessoas com problemas financeiros, violência doméstica e de saúde. Tudo isso, pois ele se culpa profundamente por um acidente de carro que matou sete pessoas (incluindo sua noiva) por causa de um erro dele. Então o mesmo decide se redimir ajudando sete desconhecidos, doando partes do corpo ou mudando suas vidas de forma definitiva.

O que eu chorei nos minutos finais foi palhaçada, rapaziada. Fiquei pensativo naquela noite. Me peguei refletindo:
e se eu pudesse fazer isso? Não pela culpa, mas pela convicção.E se, quando minha hora chegar, eu puder salvar vidas que talvez nem tenham tido as mesmas chances que eu?

Decidi, ali mesmo: quero ser doador de órgãos.

Essa decisão não veio só da emoção de um roteiro bem escrito. Veio de um lugar mais fundo: da consciência de que doar órgãos é um ato de amor ao próximo, de continuidade, de reparação coletiva.

Mas sendo uma pessoa negra, essa escolha tem um peso ainda maior.

O Brasil enfrenta um desafio sério quando o assunto é doação e transplante de órgãos na população negra. Apesar de as doenças cardiovasculares matarem mais pessoas negras (32,95%) e pardas (27,06%) do que brancas (30,60%), pessoas brancas ainda recebem mais da metade dos transplantes de coração (56%). E nos transplantes de fígado, 80% dos receptores são brancos, enquanto apenas 4% são pretos e 16% pardos.

Ou seja: somos maioria entre os que mais precisam, mas minoria entre os que recebem. E, muitas vezes, também entre os que doam.

E não é por falta de empatia. É por falta de acesso. De informação. De acolhimento. De escuta. E de confiança num sistema que, historicamente, nos negou cuidados.

Temos medo. E temos razão.

Nossa história foi marcada por violências médicas, por negligência, por ausência de cuidados. Até hoje, muitos corpos negros só são tocados com dignidade quando viram estatística.

Por isso, quando um de nós escolhe, em vida, deixar algo de si para que outros vivam, essa decisão é também um ato político.

É sobre romper ciclos. É sobre dar ao nosso corpo, tantas vezes desumanizado, um papel de salvação.
É sobre escrever uma nova narrativa: a de que corpos negros também curam, também doam, também salvam.

Quero que, quando meu tempo se encerrar, outras vidas comecem. Quero que alguém enxergue com minha córnea. Que respire com meu pulmão. Que ame com meu coração.

Quero ser, como no filme, uma ponte para sete, ou talvez dez, novas histórias que mereçam continuidade. 

E você? Já pensou nisso?

Se ainda não, assista Sete Vidas. Pesquise. Converse. E depois, olhe pra dentro de si.
A resposta pode estar ali  pronta pra transformar o fim em recomeço.

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Jorge Henrique Ramos

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Jorge Henrique Ramos

Jornalista, escritor e palestrante, foi conselheiro estadual da juventude e é autor do livro "Por trás dos muros da insanidade", tem mais de 10 anos de experiência na gestão pública.

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