A ideação suicida, na maioria dos casos, não é um estado permanente. É uma crise aguda, com pico e reflexo, que tende a passar se a pessoa atravessa aquela janela de tempo com apoio. Isso muda a forma como deveríamos entender a própria palavra "prevenção": não é uma campanha anual, é um intervalo. O intervalo entre o momento em que alguém pensa em desistir e o momento em que outra pessoa — um familiar, um colega, um profissional de saúde, um desconhecido do outro lado de uma ligação — oferece um lugar para pousar esse pensamento sem julgamento.
Restringir o acesso a meios letais, treinar profissionais de atenção primária para reconhecer sinais de sofrimento e garantir espaços de escuta genuína estão, juntos, entre as intervenções com mais evidência de eficácia no mundo. Nenhuma delas exige tecnologia sofisticada. Exigem, isso sim, que alguém esteja disposto a perceber o outro — o que, numa época de contato mediado por telas e agendas lotadas, é mais raro do que deveria ser.
Falar sobre suicídio, ao contrário do que o senso comum antigo dizia, não planta a ideia. Reduz o isolamento que a alimenta. Foi essa constatação, ainda contraintuitiva para muita gente, que sustentou a criação do Centro de Valorização da Vida em 1962 — uma das ONGs mais antigas do país, ativa desde antes de existir qualquer política pública formal de prevenção, hoje disponível pelo 188, por chat e por e-mail, 24 horas por dia.
Até a linguagem que usamos carrega peso. Por muito tempo, era comum dizer que alguém "cometeu suicídio" — verbo que, no português, também se usa para crimes e pecados, como se aquele ato fosse uma transgressão moral em vez do desfecho de um sofrimento psíquico. Hoje, guias de comunicação em saúde mental recomendam "morreu por suicídio" ou "tirou a própria vida", justamente para tirar o julgamento embutido na frase. Parece um detalhe pequeno. Mas quem já esteve perto de alguém em sofrimento sabe que o vocabulário que usamos decide se a pessoa se sente acolhida ou condenada antes mesmo de terminar de falar.
Os números explicam a urgência sem precisar de adjetivo. O último levantamento completo do Ministério da Saúde, de 2021, registrou 15.507 mortes por suicídio no Brasil — uma a cada 34 minutos, taxa 42% maior que em 2010. Atrás desse total nacional há diferenças que merecem ser ditas com cuidado, não com sensacionalismo: homens morrem por suicídio numa proporção quase quatro vezes maior que mulheres, porque recorrem a meios mais letais; mulheres tentam mais e sobrevivem mais, num padrão que se repete em praticamente todos os países do mundo. São histórias diferentes de sofrimento, e provavelmente pedem escutas diferentes — mas pedem escuta, as duas.
Há um tipo específico de silêncio que vale nomear: o masculino. Homens costumam reconhecer menos o próprio sofrimento como sofrimento, adiam mais a busca por ajuda, e chegam aos serviços de saúde mental — quando chegam — em estágios mais avançados de crise. Não é frieza nem falta de sensibilidade. É o resultado de décadas sendo ensinados que pedir ajuda é uma forma de fraqueza, que sentir é secundário a prover, que problema se resolve sozinho. Reverter isso não é tarefa de uma campanha de setembro. É tarefa de conversas de outubro, de novembro, de qualquer mês — em casa, no trabalho, entre amigos que talvez nunca tenham se perguntado abertamente "como você está, de verdade".
Também sofrem de forma desproporcional grupos que raramente aparecem nas peças de campanha. A taxa de suicídio entre povos indígenas no Brasil é cerca de três vezes maior que a da população geral, atravessada por perdas territoriais, rupturas culturais e enfraquecimento de vínculos comunitários que pedem estratégias de prevenção pensadas com as próprias comunidades, não para elas. Pessoas LGBTQIA+, sobretudo jovens, apresentam maior probabilidade de tentativa de suicídio associada ao que a literatura chama de estresse de minoria — a soma de rejeição familiar, discriminação e violência cotidiana que boa parte da população nunca precisa carregar.
Existe também uma estatística que quase nunca aparece nas peças de campanha, talvez porque seja menos dramática, e por isso mesmo mereça mais espaço: a maioria das pessoas que sobrevive a uma tentativa de suicídio não volta a tentar. Estudos com sobreviventes de métodos de altíssima letalidade — como o salto de pontes conhecidas por concentrar tentativas — mostram que, anos depois, a esmagadora maioria segue viva e relata não ter mais desejo de morrer. A crise, por mais avassaladora que pareça por dentro, tende a ser mais curta do que a vida inteira que vem depois dela. É uma informação que raramente chega a quem está no meio do sofrimento, e que talvez devesse.
Prevenção não acontece só em consultórios. Acontece também em espaços comuns do cotidiano — a sala de aula, o refeitório do trabalho, o grupo de vizinhos, a igreja, o time de várzea. Ambientes onde alguém percebe uma ausência, uma mudança de humor que se arrasta, um silêncio que já dura semanas, e decide perguntar, mesmo sem saber exatamente o que dizer depois. Não é preciso ser especialista para isso. É preciso, principalmente, deixar de lado o medo de "fazer a pergunta errada" — porque a pergunta feita com cuidado quase nunca piora a situação, e o silêncio por medo de errar quase sempre a mantém.
E há ainda os que ficam. A Organização Mundial da Saúde estima que, para cada morte por suicídio, entre cinco e seis pessoas próximas — pais, filhos, cônjuges, amigos — carregam consequências emocionais duradouras. O luto por suicídio tem uma textura própria: mistura dor, culpa e perguntas sem resposta, e é cercado por um silêncio social que raramente envolve outros tipos de luto. Quem perde alguém assim muitas vezes evita falar sobre a causa da morte, por medo do julgamento ou por não saber como as pessoas vão reagir. Cuidar de quem sobrevive a essa perda também é prevenção — porque o risco de luto complicado, e mesmo de comportamento suicida entre enlutados, é real e documentado.
Talvez o convite do Setembro Amarelo deste ano seja, no fundo, um convite modesto e por isso mesmo difícil: não o de resolver o problema de alguém, mas o de estar disponível para ouvi-lo antes que ele vire uma estatística. Isso vale para quem trabalha em saúde, para quem educa, para quem gerencia serviços públicos — e vale, sem exceção, para qualquer pessoa que more perto de outra. A prevenção começa muito antes da emergência. Começa, quase sempre, numa conversa que alguém quase não teve coragem de puxar — e numa outra pessoa disposta a ficar ali até o fim dela.
Referências
Zalsman G, Hawton K, Wasserman D, et al. "Suicide prevention strategies revisited: 10-year systematic review". Lancet Psychiatry, 2016;3:646-59.
Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado em São Paulo em 1962.
Boletim Epidemiológico nº 4, vol. 55, Ministério da Saúde/SVSA, fev. 2024 (SIM/Sinan, dados de 2021).
Ministério da Saúde. "Mortalidade por suicídio na população indígena no Brasil, 2015 a 2018". Boletim Epidemiológico, 2020;51:1-7.
Paveltchuk F de O, Borsa JC. "A teoria do estresse de minoria em lésbicas, gays e bissexuais". Rev Soc Psicoter Analíticas Grup Estado São Paulo, 2020;21:41-54.
Organização Mundial da Saúde (OMS), "Prevenção do suicídio: um manual para profissionais de saúde em atenção primária", 2000.
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