Acho que todos nós concordamos que o Brasil é um país de profundas desigualdades sociais. É uma nação onde o camarada que nasce rico tende a viver toda a sua vida dentro dos seus privilégios. Por outro lado, quem nasce pobre dificilmente consegue sair dessa condição. A situação pode até melhorar em comparação à de seus antepassados, mas, ainda assim, não o suficiente para deixar de se considerar pobre. E isso é culpa de quem?
Recentemente, postei um vídeo nas minhas redes sociais em que, durante um podcast, fui perguntado se a culpa de temas importantes como saneamento básico, educação, saúde e segurança pública não estarem sendo debatidos é da classe política ou da população que não se interessa pelo assunto. De imediato, respondi que a culpa é da classe política. E aqui cabem alguns pontos para refletirmos.
O primeiro ponto é o custo da classe política no Brasil. Estamos falando do segundo Congresso mais caro do mundo e, ao mesmo tempo, um dos menos produtivos. Emendas parlamentares quebram recordes sucessivos, e o Legislativo praticamente executa o orçamento do país. Ou seja, são muito bem pagos para fazerem pouco — e muitas vezes nem sequer cumprem suas obrigações básicas.
O segundo ponto é a perpetuação dessa classe no poder. Esta semana, me deparei com uma matéria no site congressoemfoco.com.br sobre famílias que estão no poder há gerações e já preparam seus sucessores. Vamos a alguns exemplos: José Bonifácio de Andrada e Silva, que foi ministro de Dom Pedro I, deu origem a uma linhagem que já produziu mais de 15 deputados e senadores, quatro presidentes da Câmara, oito ministros de Estado e dois ministros do Supremo Tribunal Federal, além de governadores, prefeitos e vereadores. São mais de 200 anos em que a família Andrada ocupa cadeiras no Estado.
Temos também a família do ex-presidente José Sarney e a do ministro do STF Flávio Dino, que também já foi deputado, senador e governador do Maranhão. Essas duas famílias formam praticamente uma dinastia política. Em Alagoas, temos a família Calheiros; na Bahia, a família Magalhães; em Pernambuco, a família Arraes Campos. Sem contar a família Bolsonaro, que ocupou praticamente todos os cargos de poder disponíveis e não produziu nada de relevante, a não ser gerar confusão e ruído dentro da política. Pois bem, meus amigos, essa é a nossa tão amada democracia, onde quem manda são os que pertencem a árvores genealógicas bastante específicas.
Já a população, que em sua maioria é pobre, apenas joga o jogo. O camarada que nasce pobre acorda cedo, caminha cerca de 25 minutos até a estação, pega um trem lotado, passa mais de uma hora no trajeto, depois caminha mais uns 25 minutos até o trabalho, fica 9 horas dentro da empresa e faz o mesmo percurso de volta para casa. No total, gasta de 11 a 14 horas por dia fora de casa, lutando pelo pão de cada dia.
Quando chega o período eleitoral, aparece um candidato oferecendo um milheiro de tijolos para que esse cidadão termine um muro de arrimo, impedindo que o barraco desabe em um dia de chuva. O cidadão aceita — e, sinceramente, eu não consigo vê-lo como moralmente errado por isso.
É nesse momento que se vê que o Estado não funciona. A Constituição serve muito bem para manter o status quo, da forma que eles precisam. O cidadão acaba responsabilizado por tudo isso, mas, no fundo, a culpa é 100% da classe política.
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