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Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
Entre o púlpito e o mundo

Jorge Henrique Ramos

Entre o púlpito e o mundo

O que aprendi no berço evangélico e além dele

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Fui criado no berço evangélico. Desde quando era apenas um bebê de colo, minha avó fazia questão de me levar à igreja. Ela era dessas mulheres firmes na fé, presentes em todos os cultos, círculos de oração, vigílias e ensaios de louvor. Minha infância foi feita de domingos em que a roupa era passada com carinho, a Bíblia era aberta com reverência, e o louvor preenchia os espaços da casa antes mesmo que chegássemos à igreja. 

A igreja me deu confiança. Me ensinou a falar em público, a me posicionar, a acreditar na força da palavra. Era ali, diante de tantos fiéis, que eu percebia que minha voz tinha valor. Esse espaço foi fundamental na formação do meu caráter e da minha habilidade de comunicação, algo que carrego até hoje com gratidão.

Minha avó contava com brilho nos olhos um episódio que ela nunca esqueceu: eu tinha três anos quando uma irmã do círculo de oração me chamou a atenção por estar “falando demais” no culto. Mas foi ali, diante daquela repreensão, que uma outra líder se levantou e disse algo que marcou nossa história: “Esse menino vai ser líder do grupo de jovens. Ele tem o dom da palavra.” Aquilo virou profecia de vó. Sempre que eu conquistava algo, ela me lembrava. 

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Não fui líder de jovens como ela sonhava, mas representei minha cidade, meu estado, minha geração em eventos de políticas públicas, inclusive em Brasília. E isso, convenhamos, diz muito.

Fui me formando como homem com a voz treinada no altar. Aprendi cedo a pensar antes de falar, a falar com o coração. A igreja me deu ferramentas: confiança, coragem, o senso de comunidade. O respeito dos irmãos e irmãs me fazia sentir valorizado, amado, relevante. Em tempos em que a juventude é muitas vezes silenciada, a igreja me deu microfone e isso me moldou.

Mas a vida é feita também de rupturas. De desconfortos que viram perguntas. E de perguntas que viram decisões. Com o tempo, o senso crítico começou a florescer. Passei a enxergar que, apesar de tanto aprendizado, havia pontos que me incomodavam. Sempre notei, por exemplo, uma intolerância silenciosa,  e às vezes nem tão silenciosa, com religiões diferentes. Me doía ver o tratamento dado ao catolicismo, ao candomblé, à umbanda.

O amor pregado no púlpito nem sempre era vivido nos bancos. O respeito que eu recebia nem sempre se estendia a quem era diferente. A forma como o “outro” era visto como ameaça, pecado, ou simplesmente erro. Isso me inquietava. Se Deus era amor, por que o medo do diferente?

E foi aos 20 anos, num momento decisivo da minha vida, que a ruptura se concretizou. Descobri que seria pai. E em vez de acolhimento, senti que recebi julgamento. Era como se o erro de ter um filho fora do casamento anulasse todo o meu histórico, minha fé, minha dedicação. Pela primeira vez, me senti pequeno dentro de um espaço onde, durante anos, me senti grande.

Foi ali que me afastei da igreja. Mas não da fé.

E há um ponto importante nessa jornada: em diversos lugares onde cheguei, e ainda chego, escuto algo curioso. Pessoas de diferentes religiões, ou até sem religião, me dizem: “Você tem uma energia boa.” “Você transmite paz.” “E quase sempre, essas falas vêm acompanhadas de uma coisa que aprendi desde pequeno: o respeito.

Essas experiências não foram aleatórias. Foram sinais. Fui acolhido por comunidades de matriz africana, que me homenagearam por minha luta contra o racismo. Me reconheceram não apenas pelo que eu dizia, mas pelo que eu fazia. Outro exemplo, é que um dos eventos mais lindos que já participei na vida foi promovido por uma igreja católica. A simbologia, o afeto, a força espiritual me emocionaram profundamente. 

Estar em um espaços tão diferentes do que me formou, me ensinou algo que levo comigo até hoje: caminhar por lugares diferentes também é uma forma de respeito. E o respeito, para mim, é a mais profunda manifestação de fé.

Hoje, sigo com o coração aberto. Com carinho pelo evangelho que me formou, mas também com firmeza para dizer que escolhi caminhar de outro modo. Eu acredito em Deus. Acredito nos encontros que Ele proporciona. Acredito nas pontes que a fé constrói quando está desarmada. E acredito que respeitar o outro é, acima de tudo, viver aquilo que Jesus tanto pregou: o amor.

A fé não me abandonou. O que mudou foi a forma de vivê-la. Do bem que a gente faz. Do respeito que se oferece. Da liberdade de entender o divino sem precisar encaixá-lo num molde único.

Minha avó talvez ainda sonhasse em me ver pregando num altar. Mas acho que, lá do céu, ela sorri quando vê que eu sigo fazendo aquilo que ela sempre acreditou: usando a palavra para tocar pessoas, não com julgamento, mas com verdade.

Porque no fim das contas, o que importa não é onde você fala. É como você vive. E o quanto sua fé, mesmo que sem rótulo, alcança o outro com humanidade.

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Jorge Henrique Ramos

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Jorge Henrique Ramos

Jornalista, escritor e palestrante, foi conselheiro estadual da juventude e é autor do livro "Por trás dos muros da insanidade", tem mais de 10 anos de experiência na gestão pública.

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