Nas últimas semanas, o Brasil assistiu ao retorno de uma discussão que parecia sepultada pelo tempo: o questionamento ao voto feminino.
Nas redes sociais, vozes passaram a defender que as mulheres votam "estatisticamente mal", ou que reproduzem as escolhas dos maridos, tentando transformar uma conquista histórica em objeto de disputa.
Confesso que esse debate me inquieta.
É assim que as democracias adoecem.
O voto feminino foi conquistado em 1932 como resultado de uma longa mobilização pela cidadania. Noventa e quatro anos depois, precisar defender novamente esse direito deveria causar constrangimento coletivo.
Como pedagoga, reconheço o perigo: é quando um conhecimento conquistado — de forma difícil, custosa — começa a ser desconstruído como se nunca tivesse sido importante.
Felizmente, a maioria rejeita o retrocesso: pesquisa do Instituto Meio/Ideia mostrou que 60,6% dos entrevistados discordam da retirada desse direito. Ainda assim, o fato de 11,6% concordarem com a tese acende um sinal de alerta. 11,6% pode parecer pequeno, mas representa mais de 10 milhões de brasileiros questionando o direito básico de as mulheres participarem das decisões.
A reação institucional foi imediata. A bancada feminina da Câmara dos Deputados acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral e o Tribunal Superior Eleitoral para apurar os episódios sob a perspectiva da violência política de gênero.
Como profissional de saúde, não consigo ver direitos fundamentais como tema de debate em rede social. Isso deveria ser uma linha vermelha institucional.
Mas talvez estejamos discutindo a pergunta errada. Enquanto a internet debate quem deveria votar, quase ninguém discute o que o voto decide: prioridades, orçamento e políticas públicas.
Na saúde, isso fica evidente. É o voto que escolhe quem administrará o SUS, quem amplia programas de vacinação e quem investe na atenção primária, mental e no cuidado aos idosos. Toda escolha eleitoral é uma escolha sobre como o Estado cuida das pessoas.
Quando uma UBS não consegue oferecer atendimento porque não há profissionais contratados, quando a agenda está com meses de espera, quando o atendimento a vítimas de violência é inadequado, ou quando um paciente espera meses por cirurgia, há um desafio de gestão. Mas há, antes, uma decisão política sobre orçamento e prioridades.
O voto não termina na urna. Ele chega aos hospitais, às escolas, às unidades de saúde e à casa de milhões de brasileiros.
As mulheres representam 53% do eleitorado, são maioria entre profissionais da saúde e sustentam o cuidado nas famílias. Silenciar sua participação enfraquece a voz de quem conhece os impactos das políticas públicas.
Não é coincidência que temas como violência obstétrica e câncer de mama tenham avançado com mais mulheres em espaços de decisão — isso é representação.
Uma democracia não adoece quando as pessoas pensam diferente. Ela adoece quando convence parte da população de que algumas vozes valem menos.
Defender o voto feminino é defender um país capaz de cuidar da sua população. Ele não deve ser protegido porque pertence às mulheres, mas porque pertence à democracia.
Quando a democracia adoece, a saúde da sociedade adoece junto.
Thaís Rivera
Enfermeira, gestora em saúde, pedagoga e estudante de Ciência Política.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE); Constituição da República Federativa do Brasil de 1988; ONU Mulheres Brasil; Ministério da Saúde; Pesquisa Instituto Meio/Ideia (2026); manifestações públicas da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados e atuação da Procuradoria-Geral Eleitoral relacionadas ao episódio.
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