Sabemos que o assunto do momento é a contaminação de bebidas alcoólicas com metanol, mas é preciso fazer uma análise mais específica sobre uma determinada parte da sociedade: o álcool está presente em todos os cantos das periferias, e isso é um problema grave para as famílias — especialmente para crianças e adolescentes que vivem nesse contexto social.
Se fizermos uma breve observação dentro das comunidades periféricas, é possível notar que, em qualquer rua com extensão entre 200 e 400 metros, haverá pelo menos três comércios com venda específica de bebidas alcoólicas — as famosas adegas, que cresceram absurdamente nos últimos anos. Esse crescimento é particularmente visível nas periferias. Quando analisamos os grandes centros urbanos, percebemos que os comércios que vendem bebidas alcoólicas continuam praticamente os mesmos ao longo dos anos: supermercados, lojas de conveniência e postos de gasolina. Mesmo nesses locais, a bebida alcoólica não é o principal produto; alimentos e combustíveis ainda são o foco das vendas.
Por outro lado, nas periferias, o “empreender” seguiu um caminho diferente: muitos comércios têm como principal atividade a venda de bebidas alcoólicas. E o Estado, mesmo acompanhando de perto esse crescimento, não faz absolutamente nada.
Bebidas de fácil acesso, coloridas e com sabores variados atraem principalmente os mais jovens. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019, a experimentação de bebidas alcoólicas entre estudantes de 13 a 17 anos foi de 63,3%. A pesquisa também mostrou diferenças significativas entre os sexos: 66,9% das meninas já haviam experimentado álcool, contra 59,6% dos meninos. Vale destacar que essa pesquisa foi feita antes da pandemia de COVID-19, período em que o consumo e a comercialização de bebidas alcoólicas cresceram significativamente — com entregas facilitadas diretamente na porta de casa.
As pessoas mais expostas a esse consumo excessivo, principalmente nas periferias, muitas vezes vivem o que Sigmund Freud chamava de "fuga da realidade": sem acesso a uma condição econômica digna, sem opções de lazer, e com educação pública precária, acabam recorrendo ao álcool para anestesiar dores internas e suportar a luta diária pela sobrevivência.
Quando digo que o Estado assiste a tudo de braços cruzados, é porque sabemos que ele tem capacidade de mudar esse cenário. Um exemplo claro é a Lei nº 9.294, de 1996, que restringiu o uso de produtos de tabaco em ambientes fechados e, ao longo dos anos, foi aperfeiçoada para proibir propagandas de cigarro e incluir alertas sobre os riscos à saúde nas próprias embalagens. Como resultado, vimos uma redução significativa no número de fumantes, gerando impactos positivos, como menos exposição ao fumo por crianças e adolescentes, e redução de gastos com doenças causadas pelo tabagismo no sistema de saúde pública.
Em contraste, quando olhamos para as bebidas alcoólicas, a situação é inversa: há propagandas em partidas de futebol televisionadas, nos intervalos das novelas, e até nas comemorações de títulos como NBA, Champions League e Fórmula 1. A primeira atitude dos atletas — ídolos de crianças e adolescentes — ao vencer uma competição é beber álcool, transmitindo a ideia de que a bebida é uma forma de celebrar conquistas.
Sabemos que lei boa é aquela que funciona, e a lei antifumo trouxe resultados positivos. Já em relação às bebidas alcoólicas, ainda não há qualquer êxito. Cabe ao Estado tomar providências, especialmente para proteger nossas crianças e adolescentes.
No caso da contaminação com metanol, vemos apenas uma armadilha dentro de um caminho já perigoso — o álcool. Se combatermos esse caminho perigoso, as armadilhas naturalmente deixarão de existir. O metanol é apenas a ponta do iceberg.
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