Recentemente fui convidada a participar de uma mesa de discussão no T.I.F.A (Tietê International Film Awards) com o tema: “Cinema como registro e revitalização cultural”. A mesa, composta por mim e pela minha sócia Paloma Rodrigues, aconteceria presencialmente na cidade de Tietê – sim, uma cidade de trinta e sete mil habitantes no interior de São Paulo (não, não na rodoviária do Tietê) – onde o famoso rio que corta a capital do estado deságua no Rio Paraná. Não sei por que eu achava que o rio nascia lá – talvez pelo nome? Sim. Mas o Google me corrigiu.
A viagem até a cidade é tranquila, com paisagens bucólicas e com quase nada na estrada. Sem grandes redes de restaurantes, sem postos de gasolina, apenas morros e vaquinhas que levam a gente ao imaginário clichê do interior. Só de chegar nas redondezas a gente já queria largar a vida de trem, trânsito, loucura e mudar pra lá. Quando tomamos o sorvete do Dante na praça enquanto rolava uma batalha de rima, tivemos certeza: Tietê é o carisma em forma de cidade.
O festival aconteceu no porão de uma das muitas igrejas do município. Uma igreja, aliás, que possui exposta a cutícula de um santo. Não consigo lembrar o nome do santo, mas a cutícula exposta me impressionou pela sua grandeza e me fez imaginar como conseguiram expor uma cutícula. Ela fica dentro de uma caixa de vidro? Ela não se desintegrou? E afinal de contas: aquela é realmente uma cutícula de santo? Enfim, assim como na minha última crônica, terei que voltar pra Tietê pra entender essa história melhor.
Mas aqui eu quero falar sobre a mesa. Começamos utilizando o argumento do nosso curta, “Uma das Marias”, como norte do nosso discurso. O curta se inicia com uma entrevista com a minha avó, ex enfermeira do Hospital Psiquiátrico do Juquery. Depois, acompanha nossas pesquisas pelo Museu de Arte Osório César, pelas obras criadas pelos pacientes da instituição. Das pinturas dos pacientes, partimos para outras criações artísticas derivadas daquele lugar – um monólogo escrito por mim durante a pandemia.
E aqui é preciso frisar o quanto a existência de um monumento de acervo e pesquisa em uma cidade pode derivar outras obras, outros trabalhos, outros movimentos artísticos que criam a noção de identidade e cultura de um lugar.
Depois levamos antigas enfermeiras do Juquery pra dentro do museu. É como se a gente trouxesse a população pra se reconectar com sua própria história. No final, voltamos à casa, com a minha avó pintando novamente o Juquery.
Essa ideia, esse argumento, cabe para qualquer cidade. Cabe para Tietê, Franco da Rocha, e para as 62 cidades que o Rio Tietê corta. O movimento de registrar um período é imprescindível para que angariemos mais produções artísticas que vão marcar aquela época e servir de documento histórico. Não é para a gente, é pras próximas gerações. Assim como o “Ainda Estou Aqui”, que surgiu de livros do Marcelo Rubens Paiva, e causou o alvoroço que causou ao pegar aquela história e colocar na tela do cinema.
Terminamos o dia com a exibição de “Água na Boca”, filme de Duanne Buss protagonizado por Carol Chalita e Thiago Lacerda, que fala de outro período histórico - a pandemia - e que foi gravado na casa de Duanne na região serrana do Rio de Janeiro. Durante a mesa de discussão, onde a equipe estava presente, Carol falou sobre a importância de contarmos nossas próprias histórias sem medo de que não vai tocar o outro, porque no fim das contas, aquela experiência que a gente acha que é muito individual é humana, então toca sim.
Voltamos pela estrada bucólica, agora escura e vazia, pensando o quanto o TIFA e os diálogos que tivemos durante o dia estão conectados. O quanto nossas histórias pessoais reverberaram nos outros. O quanto olhar para nossa cidade e movimentar ela pode fazer a diferença, não só pras gerações futuras, mas, principalmente, para a nossa.
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