Um dos maiores marcos da infância nos anos 2000 foi certamente o 11 de setembro e tudo o que sua mitologia traz: foi ou não foi no meio da TV Globinho? Anos de busca por Osama Bin Laden. E pra mim, principalmente, as imagens chocantes de pessoas saltando do World Trade Center e a pergunta absurda que eu fazia pra mim mesma sendo uma criança: será que eu teria coragem ou preferiria pular para a morte certa do que tentar descer de um prédio gigante em chamas, destruído, com um avião cortando ele ao meio?
De todas as imagens, a que mais ficou impregnada no meu cérebro, certamente, é a da poeira. O concreto. O que era o concreto e virou poeira, cobrindo todas as pessoas que tentavam fugir dali. Lembro que quando eu era criança, eu fechava os olhos e pensava em pessoas cobertas em pó chorando, fugindo, morrendo.
É como se a nuvem de pó tivesse coberto também as nossas mentes.
Quando as investidas de Israel a Gaza iniciaram eu pensei nessa nuvem que me aterrorizou tanto quando eu era criança, e que agora virava o monstro embaixo da cama de milhares de crianças palestinas. Mas que cama? Ela também virou pó.
Desde a semana passada minha televisão não sai da Globo News. Eu sigo assistindo, perplexa, enquanto vejo mísseis cortando o céu da noite. Aprendi que quando eles sobem, é o Domo de Ferro protegendo Israel. E quando eles descem, eles acertaram o alvo.
Não é bizarro que eu, aqui de Franco da Rocha, tenha aprendido isso? Mas também aprendi que o alcance dos mísseis norte coreanos não chega até a América do Sul, então estamos salvos. Caso eles entrem em alguma guerra (não atômica) e resvale na gente.
Não é bizarro que eu, aqui de Franco da Rocha, tenha aprendido isso?
Enquanto eu fico assistindo as notícias de ameaças entre homens do norte, sul, leste e oeste global, eu me pergunto tantas coisas. Eles não pensam apenas em PARAR? O que eles querem provar? Pra quem? Onde eles estavam quando a nuvem de pó cinzento cobriu milhares de pessoas? Eles não se colocam no lugar dos outros? Por que eles só não param?
O rosto de Benjamin Netanyahu falando para a câmera que vai matar pessoas como se estivesse dizendo que na sexta feira vai comer uma pizza começou a me dar náuseas. Desde quando normalizamos o assassinato?
Onde essas pessoas estavam no dia 11 de setembro? Ninguém passou pelo evento canônico de adquirir empatia?
Aparentemente empatia não coexiste com a guerra.
E pelo jeito esse texto tem mais perguntas do que respostas.
E para nós, aqui do sul global, o que nos resta é levantar a nossa bandeirinha branca pedindo paz para um bando de crianças mimadas em corpos de homens adultos, enquanto pegamos nossa cadeira de praia, assistindo ao fim do mundo pela TV.
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