De 1996 pra cá, eu posso dizer tranquilamente que não vi, com a emoção que o momento merece, o Brasil ser campeão mundial. Na última conquista, em 2002, eu tinha apenas 6 anos e lembro vagamente das comemorações. O caso seria diferente se eu fosse tão fascinado em futebol e com tanto acesso à informação como meu filho tem hoje.
Com os mesmos 6 anos do Antony, a professora Tânia do meu 1º ano do ensino fundamental trabalhava nossa alfabetização com fábulas. Certa vez, ela pediu como dever de casa que pesquisássemos alguns contos para compartilharmos com os colegas. Chegando em casa, fui direto num caixote velho que meu vô guardava diversos jornais e livros. Foi então que encontrei o famoso conto da Galinha dos Ovos de Ouro em uma versão mais “macabra”.
Na história, um fazendeiro descobre que sua galinha bota ovos de ouro e, tomado pela ganância de ter riqueza mais rapidamente, decide matá-la para pegar todo o ouro de uma vez. No fim, ele perde tudo, pois dentro da galinha não havia um tesouro escondido. Nada além da carne e dos ossos de uma ave comum. Ele matou sua própria fonte de riqueza e ficou sem nada.
É aí que gostaria de fazer uma analogia: provavelmente, de 2002 em diante, eu tive o azar de pegar o lado ruim do futebol brasileiro, que sempre foi uma galinha dos ovos de ouro. Com seu talento indiscutível, gerou fortunas em patrocínios, transmissões e vendas de jogadores. Mas, assim como na fábula, aqueles que deveriam cuidar desse patrimônio passaram a explorá-lo sem pensar no futuro.
Ainda estressado com as últimas participações da seleção em Copas do Mundo, eu não consigo deixar de lado a amarelinha. Sempre que possível, estou ali, torcendo e com a esperança de que, a cada quatro anos, será diferente. Mas tudo começa a mudar quando a gente percebe como a política interna da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se desenrola.
*A Virada de Chave*
Há 13 anos, não perco um dia de Donos da Bola, programa apresentado pelo Craque Neto na Band. Foi com ele que minha visão sobre a seleção mudou. Durante anos, o apresentador denunciou a gestão da CBF, apontando o histórico problemático dos presidentes que passaram por lá. Crises políticas, escândalos de corrupção e má gestão marcaram os últimos anos.
Em 2015, José Maria Marin, que presidiu a entidade de 2012 a 2015, foi preso na Suíça acusado de receber propinas em negociações de direitos de transmissão de campeonatos como a Copa do Brasil e a Copa América. Seu sucessor, Marco Polo Del Nero, eleito em 2015, foi banido do futebol pela FIFA em 2017 devido a violações éticas, envolvendo suborno e corrupção.
Em 2019, Rogério Caboclo assumiu a presidência, mas foi afastado em 2021 após denúncias de assédio sexual por uma funcionária da CBF. Ednaldo Rodrigues, que assumiu interinamente após o afastamento de Caboclo, enfrentou desafios semelhantes. Em dezembro de 2023, um tribunal do Rio de Janeiro anulou sua eleição de 2021, levando à sua destituição e à nomeação de José Perdiz como presidente interino.
Em janeiro de 2024, Rodrigues foi reintegrado ao cargo por decisão do Tribunal Federal em Brasília. Mais recentemente, o ex-jogador Ronaldo Fenômeno retirou sua candidatura à presidência da CBF devido à falta de apoio das federações estaduais, destacando a turbulência política que ainda assola a entidade. Ednaldo foi reeleito com 100% dos votos até 2030.
Foi também com Neto que ouvi pela primeira vez sobre um possível esquema envolvendo convocações de jogadores para a Seleção Brasileira. Segundo ele, empresários influenciariam as convocações, visando valorizar atletas para transferências a clubes da Premier League, especialmente para times de menor expressão. A maioria dos convocados atuava em clubes ingleses de menor porte, sugerindo que tais convocações poderiam ser motivadas por interesses comerciais, e não esportivos.
Isso me deixava com uma pulga atrás da orelha. Embora as alegações de Neto não tenham sido formalmente comprovadas, em uma entrevista recente ao podcast Resenhando com o Júnior, o ex-zagueiro do Palmeiras, Maurício Santos, revelou que um empresário influente tentou “comprar” sua convocação para a Seleção Brasileira.
O objetivo seria facilitar sua transferência para o futebol inglês, onde regras da Premier League exigem que jogadores não europeus tenham um número mínimo de convocações ou sejam negociados por valores elevados para obter permissão de trabalho. Na época, Maurício possuía uma proposta do Manchester United no valor de 12 milhões de libras, mas não atendia aos critérios de convocações necessárias. Ele recusou a oferta do empresário, afirmando que desejava alcançar a Seleção por mérito próprio.
*Lavagem aos Porcos*
Racionais Mc’s me ensinaram que o sistema é sujo, mas é sábio e não é bobo. Por isso, eu não desconfiaria que algo que parece ser tão grandioso pra nós, fosse apenas a ponta do iceberg.
O problema nunca foi perder para a Argentina ou sofrer o 7 a 1 da Alemanha. Derrotas fazem parte do jogo, mas como se recuperar quando a maior derrota acontece nos bastidores? Quando a camisa mais vitoriosa do futebol mundial se torna uma peça de leilão nas mãos de empresários e dirigentes gananciosos? O verdadeiro fracasso não está em campo, mas sim fora dele, onde interesses escusos sufocam qualquer possibilidade de resgate do futebol nacional.
Cada convocação suspeita, cada escândalo abafado, cada dirigente afastado e depois reintegrado são sinais de um sistema que se recicla para continuar explorando o esporte e enganando o torcedor. Enquanto isso, a Seleção perde a identidade, a confiança e, principalmente, o respeito de quem a acompanha há gerações. O torcedor que cresce vendo sua seleção servir a propósitos comerciais, e não esportivos, não aprende a amar a amarelinha como deveria. A nova geração, que deveria carregar a mesma paixão de nossos pais e avós, cresce desacreditada, encarando a Seleção não como um símbolo de glória, mas como um produto de interesses particulares.
E assim seguimos, esperando que a galinha dos ovos de ouro volte a botar, enquanto os mesmos de sempre seguem com a faca na mão, prontos para abrir a ave em busca de um lucro imediato. A corrupção dentro da CBF não é apenas uma questão de dinheiro desviado ou convocações vendidas. É um roubo de algo muito maior: o orgulho de ver o Brasil jogar e a certeza de que, dentro de campo, só o talento e a dedicação deveriam importar. É uma ferida aberta que pode comprometer o futuro do futebol brasileiro por anos, talvez décadas.
Se nada mudar, logo não sobrará nem os ossos. A Seleção Brasileira, que um dia foi sinônimo de arte, encanto e respeito, corre o risco de se tornar apenas uma lembrança do que já foi. O torcedor, cansado de ser enganado, pode um dia deixar de acreditar de vez. E quando isso acontecer, não haverá título que traga de volta o que foi perdido.