Dois Pontos | O portal mais atualizado da região do CIMBAJU

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026
A partida de minhas avós as tornou eternas

Jorge Henrique Ramos

A partida de minhas avós as tornou eternas

Como lidei com o luto ao perder minhas maiores referências

IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Eu não esperava que quando retornasse aqui, após duas semanas, seria pra falar sobre o luto. Eu pensei muito no que poderíamos conversar, cheguei preparar textos com alguns temas, mas tinha que ser sobre isso. Sinto que, talvez, uma pessoa precise ler sobre isso, nesse momento. 

Perdi na semana passada minha avó paterna, Dona Romualda, aos 103 anos. Há quatro anos, também perdi minha vó materna, Dona Antônia, aos 68 anos. Ambas foram fundamentais no meu processo, tanto a vó Antônia no meu dia a dia, vivendo juntos na mesma casa, quanto a vó Romualda, que com 40 minutos de conversa me fazia se sentir concluindo uma pós-graduação em qualquer tema que abordássemos. 

Antônia e Romualda não foram apenas minhas avós, foram uma dupla de gigantes que moldaram o homem que o mundo conhece como Jorge. Antônia foi mãe em tempo integral, dessas que protegem, ensinam, cobram e abraçam tudo ao mesmo tempo, como se o colo dela fosse uma casa de alvenaria, onde nada desmorona. Já Romualda era o Oráculo da família, conselheira precisa, de fala mansa e certeira, que sabia a hora exata de dizer a palavra que acalmava ou sacudia. 

Leia Também:

Juntas, elas formavam a minha fundação: Antônia com o amor firme que me ancorava, Romualda com a sabedoria serena que me guiava. Se hoje caminho com os pés no chão e a cabeça erguida, é porque tive duas rainhas me ensinando a caminhar, uma me empurrando com afeto, a outra me apontando o caminho com visão.

E quando aconteceu, foi diferente do que eu imaginava

Lá pelo segundo ano do ensino médio, em 2012, numa daquelas rodas de conversa furada que viravam sessão de terapia coletiva no intervalo, surgiu a pergunta: “Qual é o maior medo que você tem pro futuro próximo?” Não hesitei: perder minhas avós.

A morte, como todo mundo sabe, é a única certeza da vida e, ainda assim, continua sendo o maior medo de muita gente. Dizem por aí que o que mais tememos é o desconhecido, mas eu discordo. O que assusta de verdade é aquilo que a gente já sabe que vai acontecer. O nosso maior medo não mora no escuro, mora na certeza e é ela quem dirige o carro, com a morte sentada no banco do passageiro, seguindo firme rumo ao destino final de todo mundo.

Quando eu disse lá atrás que meu maior medo era perder minhas avós, eu imaginava um cenário de desespero, de chão sumindo, de mundo virando do avesso. E seria justo. Afinal, como seguir em frente depois de perder quem segurou sua mão até aqui? Mas o que eu não sabia naquela época, e só entendi agora, é que o luto pode vir acompanhado de paz. E foi isso que me salvou.

Antes mesmo da partida de ambas, fiz uma análise minuciosa da minha vida com cada uma delas, como quem organiza um baú de memórias com calma, sem pressa de fechar. Eu tinha a certeza de que nenhuma delas carregava comigo nem um grama de desgosto. Com dona Antônia, era beijo até ela me empurrar aos tapas, reclamando da encheção de saco. Com dona Romualda, o ritual era o mesmo, mas ela se irritava mais fácil com os cheiros no pescoço, mesmo sabendo que gostava da cena. Fui neto presente, risonho e pegajoso do tipo que não economiza afeto nem em dias ruins.

E isso fez toda diferença. Porque na hora do adeus, não fui tomado pelo arrependimento. Fui tomado pela gratidão. Não seria justo com elas, que já estavam cansadas, frágeis, em outro tempo do corpo, querer mantê-las aqui só pra saciar meu medo de perder. Aceitei que o descanso era merecido. E que perder em vida não era, de fato, perder. Era transformar presença em eternidade.

A vida seguiu, como tem que ser. Mas agora, quando me perguntam como consegui lidar com a perda das minhas duas maiores referências, eu respondo com a mesma certeza de quando, aos 16, falei do meu maior medo: Eu não perdi, eu herdei. Herdei amor, herdei valores, herdei história. E enquanto eu viver, Antônia e Romualda vão viver também não apenas na memória, mas em tudo o que eu sou e no que estou construindo. 

Porque tem gente que, mesmo depois que vai, nunca parte. Só muda de forma e passa a morar na gente. Hoje, elas vivem em mim. Nas palavras que escolho, nos valores que carrego, na forma como educo meu filho. Toda vez que abraço ele com força, é um pouco de dona Antônia e dona Romualda passando por mim. O luto, que antes parecia fim, virou continuidade.

Comentários:
Jorge Henrique Ramos

Publicado por:

Jorge Henrique Ramos

Jornalista, escritor e palestrante, foi conselheiro estadual da juventude e é autor do livro "Por trás dos muros da insanidade", tem mais de 10 anos de experiência na gestão pública.

Saiba Mais

Envie sua mensagem, será um prazer falar com você ; )