O cenário é quase sempre o mesmo: um rastro de borracha, uma bicicleta retorcida e o silêncio que sucede o impacto. Nas rodovias brasileiras, o que para um motorista é um "susto" ou um para-lama amassado, para o ciclista é, quase invariavelmente, o ponto final. A morte de quem pedala no asfalto não é apenas uma fatalidade do destino; é o resultado de uma cultura que prioriza a velocidade sobre a vida e o aço sobre a carne.
Existe uma falácia perigosa de que a rodovia "não é lugar de bicicleta". Além de ignorar o Código de Trânsito Brasileiro — que garante o direito de circulação nos bordos da pista na ausência de ciclovias — esse pensamento ignora a realidade social do país. Para milhares, a bicicleta não é um acessório de lazer de fim de semana, mas o único meio de transporte para chegar ao trabalho, muitas vezes cruzando trechos onde o acostamento é inexistente ou tomado pelo mato.
O problema central reside na distância da empatia. O Artigo 201 do CTB estabelece a obrigatoriedade de manter 1,5 metro ao ultrapassar um ciclista. Na prática, o que vemos é o uso do veículo como ferramenta de intimidação. A "fina" educativa, o deslocamento de ar de um caminhão em alta velocidade e a impaciência de quem não pode perder dez segundos transformam o acostamento em uma roleta russa.
Não podemos aceitar que o progresso de uma região seja medido apenas pela fluidez do tráfego, enquanto ignoramos os corpos que ficam pelo caminho. A segurança viária exige infraestrutura — iluminação, passarelas e pavimentação — mas exige, sobretudo, uma mudança de mentalidade.
Enquanto o motorista enxergar o ciclista como um obstáculo e não como um cidadão, o asfalto continuará sendo um território de segregação. No topo daquelas duas rodas não está um "atraso no trânsito", mas o amor de alguém, uma vida inteira e uma vulnerabilidade que o metal jamais sentirá.

Em cima de uma bike, tem um ser humano, que é Mãe, Pai, filho, irmão, tio ou avó(avô).
Vamos conscientizar?
Chega de vidas perdidas, chega de famílias destruídas ...
BASTA!
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