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Quarta-feira, 13 de Maio de 2026
Entre o 0 da maquininha e o 10 de berço

Jorge Henrique Ramos

Entre o 0 da maquininha e o 10 de berço

Uma história que vai além de um corte de cabelo

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Era como uma segunda pele. Seja para ir à escola, à padaria, a uma festa de família ou até mesmo para jogar bola: o boné estava lá comigo. O único que eu tinha na época, fechado, branco, com detalhes pretos da Onbongo, era como um uniforme. Se ele estava na cabeça, estava tudo certo!

O cabelo sempre na zero, o que reforçava que o pente não era bem-vindo nem mesmo na maquininha. E era sem erro: saía da garagem, que era o salão da minha tia, passava a mão na cabeça para tirar os cabelos que restavam e, em seguida, o boné vinha para cobrir tudo.

Eu, sinceramente, já estava acostumado. Não conseguia enxergar o problema racial e estrutural daquilo, era uma parte natural da minha vida. Tomei coragem para fazer algo diferente aos 12 anos, aproveitando que meu pai, que sempre acompanhava meus cortes, não estava em uma ocasião.

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“Tia, corta no pente 1 e faça risquinhos como se fossem tranças no cabelo.”

Ela me perguntou se eu tinha certeza, e reafirmei. Naquele ano, 2008, eu tinha visto um jogo do Ronaldo pelo Milan no antigo canal do Esporte Interativo e queria seguir o ídolo. Chegando em casa, minha avó ficou indignada. Sua preocupação era como iriam me ver na rua.

Na hora, falei que não me importava com a opinião dos outros, sem saber que os “outros”, na visão dela, eram, na verdade, a polícia. Naquela época, para os preconceituosos, um neguinho com o cabelo ousado era tudo, menos alguém com orgulho.

Enquanto os risquinhos não sumiam, passei invicto pelos enquadros da PM, mas fui o mais premiado na zueira da escola pelos colegas de cabelo liso arrepiado com sabão, febre naquele período. Chorei algumas vezes, mas sozinho no meu quarto.

Três anos depois, Neymar estourou no futebol e foi a primeira vez que um cabelo quimicamente alisado me chamou atenção — não pela estética, mas pelo que o moicano representava. Mais uma vez, mudei e alisei o cabelo por cerca de dois anos.

Por incrível que pareça, estava mais feio do que o penteado do Ronaldo, mas a zueira não veio na mesma medida. Hoje, com um letramento racial aguçado, percebo que, enquanto na primeira vez tentei ser um fenômeno seguindo um corte afro, a aceitação do moicano foi melhor simplesmente porque desfiz minha herança em formato de mechas em espiral para um liso que, no fundo, era tão falso quanto a aceitação que achei ter recebido naquela época.

Herança em aspiral

Uma curiosidade interessante sobre o cabelo crespo é que ele cresce em formato espiral, o que faz com que pareça crescer mais devagar do que cabelos lisos ou ondulados. O crespo tem essa forma naturalmente devido à estrutura do folículo capilar e à composição da queratina nos fios.

Diferente dos cabelos lisos, que nascem de folículos redondos, os cabelos crespos vêm de folículos ovais ou elípticos, o que faz com que os fios cresçam em espiral ou em zigue-zague. Isso é resultado de uma adaptação genética ao clima quente e ensolarado de regiões africanas, onde ajudava a proteger o couro cabeludo contra a exposição intensa ao sol, mantendo a cabeça mais arejada.

Assim como a espiral simboliza crescimento, conexão e evolução contínua, os fios crespos carregam a história, a identidade e a força de um povo que sempre se reinventou diante das adversidades.

Cada curva do cabelo representa os caminhos trilhados pelos ancestrais, a resiliência de quem já foi forçado a esconder sua própria estética, mas que hoje resgata seu orgulho e autenticidade. Assim como a espiral nunca se fecha completamente, sempre se expandindo para novas direções, o cabelo crespo também é símbolo de liberdade, expressão e beleza infinita.

Eu queria ter essa visão analítica quando mais novo, mas o processo de identidade que passei foi mais do que necessário para me tornar quem sou hoje. E agora conto para vocês onde tudo mudou. Adivinhem? Mais uma vez, por influência de um atleta.

Em 2014, passei a acompanhar basquete e vi o MVP daquela temporada, Stephen Curry, fazer de tudo. Ele deu ao Golden State Warriors o primeiro título desde 1975 e, entre suas maiores conquistas naquele ano, sem dúvidas, está o fato de ter me influenciado a cortar o cabelo igual ao dele. Brincadeiras à parte, o famoso “corte americano” ainda era pouco conhecido no Brasil, e lembro que meu pedido ao cabeleireiro foi: “Mano, faz aquele corte que na lateral começa na zero e vem crescendo”. Eu nem sabia que aqui era conhecido como o icônico “disfarçado”.

Daí para frente, foi só para frente mesmo. A cada renovação, a autoestima ocupava o espaço da insegurança e passou a ser confundida com exagero. Fiz diversos cortes, de vários tamanhos e estilos, e, aos 26 anos, finalmente tive a possibilidade de fazer minha primeira trança nagô com o cabelo alto de verdade. Foi um processo de (re)conhecimento fundamental para a formação de quem tomaria, para sempre, o posto de melhor amigo deixado pelo boné anos atrás.

Para ele, eu tiro o chapéu

Fui pai aos 22 anos e, além de toda a responsabilidade que a figura paterna tem a obrigação de cumprir, trabalhar a autoestima do meu pivete sempre esteve entre meus principais deveres. Além da identificação com a cor da pele, que é papo para outro dia, o cuidado com o próprio cabelo sempre foi rotina para o Antony.

Meu filho foi abençoado com o crespo que eu sempre quis. Só para você ter uma noção, pesquise sobre as curvaturas do cabelo crespo para entender o que vou falar agora: com a mistura do cabelo cacheado da mãe, curvatura 3B, e o meu, 4C, Tony veio com um 4A mais lindo do mundo. Onde ele chegava, o cabelo já chamava atenção, e os elogios eram mais frequentes do que os olhares que me condenavam quando eu era mais novo. Amém, amém!

Pelo menos nessa geração, esse dever está mais do que cumprido. Aliás, levando em consideração que, em 10 gerações, foram necessários 2.046 antepassados diretos, acredito muito que o Tony já fez história ao trançar os cabelos pela primeira vez aos 4 anos. (foto que ilustra a coluna). 

E se me perguntassem: “Em uma escala de 0 a 10, onde está seu orgulho do seu cabelo hoje?”, eu diria que está tão forte e presente quanto o 0 da maquininha que, por muito tempo, ocultou o 10 que veio de berço.

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Jorge Henrique Ramos

Jornalista, escritor e palestrante, foi conselheiro estadual da juventude e é autor do livro "Por trás dos muros da insanidade", tem mais de 10 anos de experiência na gestão pública.

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