Nesta semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, com uma das justificativas mais frágeis possíveis, anunciou a taxação de 50% sobre produtos brasileiros exportados, a partir de 1º de agosto. Ele alegou que a decisão se deve à maneira como a Justiça brasileira está tratando o ex-presidente Jair Bolsonaro, o que considera uma espécie de "caça às bruxas", além de criticar o que vê como autoritarismo do STF em relação às Big Techs. A atitude do presidente norte-americano causou grande repercussão na imprensa, entre especialistas em economia e no próprio governo federal.
Donald Trump já venceu duas eleições nos EUA prometendo exatamente esse tipo de postura — nacionalista, protecionista e combativa. Se essa é a conduta mais adequada para um chefe de Estado, cabe a cada um julgar. No entanto, é fato que decisões como essa afetam principalmente a população mais pobre, que corre maior risco de desemprego e instabilidade econômica. A verdade é que a postura de Trump não surpreende: ele deixa claro que enxerga a política externa como uma extensão direta da sua política interna.
Nesse cenário, é fundamental olharmos também para dentro do Brasil. Ao ser eleito pela terceira vez, o presidente Lula lançou o slogan “União e Reconstrução”, prometendo restaurar as relações internas e internacionais, abaladas pela polarização política — especialmente no governo Bolsonaro. No entanto, o que se vê é o oposto: as relações institucionais no Brasil seguem deterioradas. Os três poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário — frequentemente entram em conflito, e o povo, mais uma vez, fica à margem, apenas torcendo por entendimento e estabilidade.
Lula, que sempre teve divergências ideológicas com Trump, não costuma deixar de se posicionar contra as declarações e atitudes do presidente norte-americano. Contudo, os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Conhecendo o temperamento e o estilo de fazer política de Trump, o governo brasileiro deveria agir com mais cautela para evitar retaliações comerciais que impactam diretamente a economia nacional.
Um exemplo disso foi a recente cúpula do BRICS, ocorrida há pouco mais de uma semana. Durante o evento, Lula declarou que o dólar não deveria continuar sendo a moeda de referência para transações comerciais entre os países do bloco. A declaração enfureceu Donald Trump, que reagiu quase imediatamente com tarifas pesadas contra produtos brasileiros. Vale lembrar: só no primeiro semestre de 2025, as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 20 bilhões — um aumento de 4,4% em relação ao mesmo período de 2024. Para muitos especialistas, foi um gesto arriscado por parte do presidente brasileiro.
Donald Trump pode até ultrapassar os limites com frequência, mas não devemos responder erro com mais erro. O Brasil já atravessa um momento econômico delicado. Lula afirma defender a soberania nacional e que autoridades estrangeiras não devem interferir nos assuntos internos do país. No entanto, na semana passada, ele foi pessoalmente à Argentina visitar a ex-presidente Cristina Kirchner, que está em prisão domiciliar por corrupção e lavagem de dinheiro. Ao sair da visita, levantou uma placa com os dizeres “Cristina Livre” — uma clara interferência em um processo judicial de outra nação.
Há momentos para gestos simbólicos na política, mas este definitivamente não era um deles. No fim das contas, o governo precisa seguir uma linha pois se não quem paga por esses gestos e erros são sempre os mais pobres.