Uma escritora que aprendi na escola disse que tudo no mundo começou com um sim. Parece que uma molécula disse sim para outra e hoje estamos aqui. Mas quando eu olho para minha história, penso que tudo começou com um não. O primeiro não foi muito antes de eu nascer, quando meus pais não se amavam e tiveram uma filha que também não amavam. Minha mãe não me queria e fez questão que eu soubesse disso. Tudo piorou quando meu pai não ficou – e talvez, esse seja o segundo não da minha vida.
Era uma noite de setembro, muito chuvosa, quando eu o vi pela última vez. Eu devia ter sete anos. Ele tinha os olhos negros, assim como a pele; lembro dele muito carinhoso, mas quando bebia era outra pessoa. De repente, chegava em casa e gritava, xingava minha mãe de palavras indizíveis para mim. Nessa última noite, ele bateu, mais uma vez, na minha mãe. Mas ela não deixou barato, me mandou pro quarto, debaixo de gritos, e fez com que ele sumisse. Nunca soube o que aconteceu. Nem tive coragem de perguntar.
Hoje, eu entendo que ele não era bom, mas nunca entendi por que minha mãe se tornou mais distante ainda. Ela nunca me foi atenciosa, isso é verdade, mas desde aquele dia, tudo piorou. Será que foi a falta dele? Será que esse amor que doía tanto era tudo que ela conhecia?
Ela teve que trabalhar o dobro para sustentar eu e minhas duas irmãs. Tenho a impressão que ela começou a nos odiar, porque ela teria desistido, se não fosse nossa existência. Talvez, depois de se livrar do meu pai, ela teria corrido atrás dos seus sonhos – será que ela tinha sonhos? Mas não: ela teve que se dobrar e se desdobrar por crianças que nem amava tanto assim. Não a culpo, se eu tive uma infância difícil, ela muito mais. Nem aprendeu a ler, começou a vida muito cedo. Se tivesse a chance de escolher, ela escolheria uma outra vida qualquer. Mais livre.
Nessa ânsia dela, eu, sem nenhuma referência, me tornei mãe das minhas irmãs. Afinal, elas precisavam de cuidado. O meu amor por elas eu tirei de um lugar que até hoje não sei. Mas, eu sabia que as amava e faria de tudo para protegê-las. Então, eu tive que abandonar a escola. Não conseguia mais conciliar: o horário que eu saia da escola, naquele ano, não batia com os horários delas. Nessa época minha mãe fazia faxina em várias casas diferentes, saia de casa antes do sol nascer e chegava depois dele se pôr – será que ela via a luz do sol?
As minhas irmãs ficavam sozinhas por muito tempo e eu, aos dez anos, ficava muito preocupada. Quando deixei de ir para escola, que ficava no bairro, minha mãe nem se importou. Também, ela não entendia a importância. Mas eu sentia falta das aulas, principalmente. Foram nelas que conheci aquela escritora de nome bonito e mente fantasiosa. E a minha mente seguiu como a dela, embora eu estivesse mais preocupada com a roupa lavada do que com a origem do mundo.
E assim, o tempo passou rápido demais. Eu segui cuidando das minhas irmãs, até que uma vez, quando as deixei na escola, vi uma coisa nova lá: uma biblioteca. Mais tarde, eu descobri que era onde todos os livros ficavam. Como eu podia explorá-la? Bom, as roupas podiam ficar um pouco mais no varal, não é? Quando entrei na biblioteca, estava acontecendo uma aula fora da sala. A professora, de pele escura e cabelo como o meu, explicava um poema. E ele era tão lindo; começava a me doer que eu não lia tão rápido como as crianças da minha idade.
Eu só não esperava que mais tarde, a dor que eu sentiria seria também física. Eu entendi o amor que minha mãe tinha pelo meu pai, e eu chovi, junto da tempestade que encharcou as roupas que estavam no varal e assustou minhas irmãs. Mas, a minha chuva era diferente: se intensificava com as rajadas de couro nas minhas costas; as gotas caíam dos meus olhos. Aquele amor doído, ardia e machucava também o meu corpo. Na escola, eu nunca me senti assim. Naquele mesmo dia, eu estava nas nuvens; e minha mãe provocou o temporal, acabando com tudo.
Mas uma coisa eu tinha entendido, não podia ficar mais longe dos livros. Eu precisava ler rápido, quem sabe aprender a multiplicar ou o porquê da chuva – além da dor. Então, decidi: eu voltaria para escola. Demorasse o quanto fosse. Eu não podia passar pela vida com tanto amor e com tão pouco conhecimento. Sabia que podia contar com uma pessoa: aquela professora, que me acolheu e, mal sabe ela, mudou o que eu tinha como mundo.
Me certifiquei, antes de levar minhas irmãs para escola, que não tinha nenhuma roupa no varal – o mesmo erro não se comete duas vezes. Eu relatei tudo, tudinho, para professora, e ali, naquele dia ensolarado e sem nuvens, chovi muitas lágrimas. Comecei minha história com um não: “Não posso vir para escola, mas eu quero tanto, me ajuda!”. Surpreendentemente, tive como resposta um sim – o primeiro deles. Talvez nem tudo tenha começado com um sim, mas com certeza, se transformou com as raras aparições dele.
Minha professora era como eu e por isso, acho que partilhávamos as mesmas dores. Isso me fez entender que muitos sonhos abandonados por mim eram possíveis. Com uma caneta na mão, ao lado dos livros e de alguém como ela, eu senti que poderia ir longe, o quanto quisesse.
Foi uma tarefa árdua, conciliar tudo, mas agora eu tinha ajuda. As minhas aulas e de minhas irmãs eram no mesmo horário. E fui tomando gosto pela escola. Entendi muita coisa: não bastava só ler, queria escrever, aprendi a multiplicar, entendia não só a minha chuva… Tudo começou a mudar. Eu não deixava de fazer os afazeres, mas ainda assim, tudo estava diferente.
Hoje eu sei: não deveria ter me desdobrado assim, tão criança. Uma criança não deve cuidar da casa, dos irmãos e se tornar tão responsável. E recai sempre em nós. Mas são tantas as crianças que se concebem com o não. A escola me deu o sim. E comecei de novo.
Durante aquele ano de volta à escola, tive muita vergonha da minha dificuldade de ler – será que minha hora da educação havia passado? Não foi uma cartomante, como a daquele livro, que me confortou, mas sim a professora: “Nunca é tarde, enquanto houver vida e esperança, haverá a hora da educação”
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