Se existe uma sensação universal na vida adulta é a exaustão de tentar consertar a si mesmo e falhar repetidamente. A gente compra a agenda nova e baixa o aplicativo de gestão de tempo crentes de que a organização nos salvará. Prometemos que desta vez vai ser diferente e desenhamos planos perfeitos. Semanas depois estamos parados exatamente no mesmo lugar e nos sentindo culpados.
Essa paralisia recorrente não acontece porque você é preguiçoso e nem porque lhe falta energia. O buraco é muito mais embaixo e a gente precisa parar de tratar um problema biológico e sociológico com ferramentas de escritório. A verdade pouco falada é que a autossabotagem é uma estrutura de defesa extremamente sofisticada. O seu cérebro prefere um fracasso que ele já conhece do que um sucesso que ele nunca viu.
Para entender por que travamos diante dos nossos maiores sonhos precisamos olhar para a história do trabalho. O sociólogo Domenico De Masi toca numa ferida aberta em sua obra O Ócio Criativo ao explicar nosso descompasso temporal. Ele argumenta que vivemos tecnologicamente no futuro mas operamos mentalmente com o modo de pensar da sociedade industrial do século dezenove. Fomos educados geração após geração para acreditar que o valor de um ser humano é medido pela quantidade de sofrimento que ele aguenta.
Aprendemos desde a escola que trabalho sério é sinônimo de dor, esforço repetitivo, além de ser chato e cansativo. Essa crença está tão enraizada que ela contamina nossa capacidade de criar e de sentir prazer no que fazemos. E quando você começa um projeto que ama ou algo que flui com naturalidade, o seu sistema de alerta dispara imediatamente. O subconsciente entende aquele prazer como algo errado e irresponsável, como se você estivesse burlando uma regra moral importante.
A gente se sabota muitas vezes porque a tarefa está fácil demais. Sentimos uma culpa profunda e inconsciente por não estarmos sofrendo o suficiente para merecer o resultado. Mas a culpa social é apenas metade do problema pois existe também uma armadilha biológica importante. Stanley Rosner explica com precisão em seu livro O Ciclo da Autossabotagem que o ser humano não busca a felicidade. Ele busca a familiaridade.
Nós somos máquinas viciadas em padrões e o cérebro economiza energia repetindo o que já conhece. Isso cria um paradoxo cruel na nossa rotina. Para muita gente o fracasso, a rejeição, o dinheiro curto e a crítica são lugares horríveis de se estar. Porém eles são lugares conhecidos e mapeados. Você já sabe como sobreviver a eles e já conhece a textura dessa dor. O sucesso, por outro lado, é um completo desconhecido. Finalizar aquele seu projeto ou mudar de carreira traz variáveis que você nunca controlou na vida.
O sucesso exige que você seja visto, julgado e assuma novas responsabilidades que assustam. Diante desse abismo do novo, o seu cérebro entra em pânico e puxa o freio de mão na reta final. Ele prefere te devolver para a mediocridade segura do que te deixar arriscar em um cenário que ele não consegue prever.
Por isso a disciplina nunca vai resolver a autossabotagem sozinha. A disciplina é uma ferramenta de repetição e ordem. Você não cura um vício em repetição com mais repetição. É aqui que a criatividade deixa de ser um luxo artístico para se tornar uma questão urgente de saúde mental. A criatividade é a única ferramenta humana capaz de lidar com a incerteza sem travar.
Julia Cameron diz em O Caminho do Artista que precisamos recuperar o senso de brincadeira para destravar o fluxo. Isso está longe de ser infantilidade. Trata-se de uma estratégia neurológica pura.

Quando você se propõe a ser criativo sem a obrigação de gerar um produto final perfeito você desativa o alarme do perigo. A criatividade é o caos organizado e exige que você conviva com o rascunho torto. Ela te força a encarar a página em branco e o erro grosseiro sem julgamento. A solução para sair desse ciclo exige ter a coragem de ser imperfeito propositalmente.
Você precisa aprender a conviver com o medo sem deixar que ele dirija o carro da sua vida. A única forma de fazer isso é criando pequenos atos de desobediência contra a sua própria rigidez. Em vez de tentar fazer o projeto da sua vida, hoje tente fazer a pior versão possível dele. Permita-se escrever mal, desenhar mesmo sem saber ou ter uma ideia ridícula apenas pelo prazer de fazer.
Quando você faz isso intencionalmente você prova para o seu sistema nervoso que o mundo não vai acabar se você errar. Você começa a quebrar a necessidade compulsiva de controle e previsibilidade. A cura para o medo de falhar não é ter a garantia do sucesso. A cura é ter a liberdade de experimentar sem garantias e sobreviver ao processo.
Enquanto você continuar esperando se sentir pronto e seguro para agir, você continuará parado. A segurança é o oposto da criação. O convite aqui é para que você use a criatividade como uma forma de desobedecer esse instinto arcaico que te mantém nesse lugar que você tanto reclama e quer sair. Afinal você parou aquele projeto porque ele era ruim ou parou porque ele estava começando a ficar bom e isso te assustou?
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