Se existisse um lugar no mundo onde uma mulher pudesse estar blindada contra o assédio, a lógica diria que seria em um ambiente monitorado por câmeras 24 horas por dia, transmitido para milhões de lares. A realidade, porém, nos deu um tapa na cara esta semana. O episódio de importunação sexual no BBB 26, onde o participante Pedro encurralou Jordana na despensa, tentando beijá-la à força e segurando-a pelo pescoço, implodiu a falácia da segurança pela vigilância.
Assistir àquela cena causou náusea coletiva não apenas pelo ato em si, mas pela familiaridade do enredo. A "prensada" na parede, o não dito que foi ignorado, a força física usada como ferramenta de convencimento. E, pior, a justificativa posterior: "foi cobiça". Pedro não viu Jordana como uma competidora ou uma pessoa; ele a viu como um território a ser conquistado, ignorando sua autonomia. Se um homem se sente confortável para agir como um predador sob os holofotes nacionais, ciente de que o Brasil inteiro está assistindo, o que impede esse mesmo perfil de homem de agir quando as portas estão trancadas e as câmeras desligadas?

A resposta está nos números, e eles são aterrorizantes.
Não estamos seguras na TV, e definitivamente não estamos seguras em casa. O ano de 2025 entrou para a história como um dos mais sangrentos para as mulheres brasileiras. A cidade de São Paulo bateu seu recorde de feminicídios desde o início dos registros. Não foram mortes acidentais; foram execuções cometidas por parceiros e ex-parceiros que, assim como o participante do reality, acreditavam ter direito de posse sobre aquelas vidas.
Os dados do ano passado desenham uma escalada na crueldade. O Brasil encerrou 2025 com um novo e triste recorde: foram 1.470 feminicídios de janeiro a dezembro, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número supera os 1.464 registros de 2024, até então a maior marca da história. Essa estatística prova que a violência doméstica deixou de ser apenas uma agressão progressiva para se tornar, cada vez mais, uma sentença de morte rápida e brutal.

O caso do BBB 26 é pedagógico porque escancara a raiz do feminicídio: o desrespeito ao "não". O caminho entre o assédio "por cobiça" na festa e o corpo estendido no chão da sala começa exatamente na naturalização da invasão do espaço feminino. Quando a sociedade, a emissora ou a justiça demoram a agir, a mensagem que fica é a da impunidade. Felizmente, a Polícia Civil (Deam) começou a instaurar um inquérito, mas a ferida social permanece aberta.
Vivemos em um estado de alerta constante. Checamos o banco de trás do carro, compartilhamos localização em tempo real, evitamos ruas escuras e, agora, sabemos que nem mesmo em um confinamento televisionado podemos baixar a guarda. A sensação de insegurança é sufocante.
E existe um abismo entre o medo deles e o nosso. O homem sai à rua com medo de ser assaltado, de perder o carro ou a carteira. Nós saímos com medo de perder a "vida em vida". O medo do estupro, da violação que mata a alma e deixa o corpo para trás, é uma sombra constante.
Apesar de todos os avanços, o homem ainda insiste em agir como se fosse nosso dono. Perante a sociedade, muitas vezes continuamos sendo reduzidas a objetos sexuais, disponíveis para o consumo ou descarte. Por isso, todos os dias temos medo. O tempo todo temos medo. Confiar em um homem tornou-se uma roleta russa, jogada perigosamente até dentro de casa.
E que fique claro: apontar essa realidade não é uma generalização leviana, é constatar um fato cruel. Uma crueldade que, inclusive, atinge vocês, homens. O machismo fere a todos. A cultura do estupro, intrínseca na nossa sociedade, também os afeta no momento em que os impede de serem humanos para serem apenas "machos". Vocês continuam destilando uma masculinidade tóxica, dita como "certa" por quem não deveria ditar nada, e muitas vezes nem percebem que também são vítimas dessa engrenagem.

Enquanto a masculinidade for construída sobre a ideia de dominação e a recusa da mulher for vista como um "charme" a ser quebrado à força, nenhuma câmera será suficiente. As leis e a polícia tentam conter o estrago, mas é a sociedade que continua fabricando agressores.
O reality show e os recordes de morte em 2025 provam que o problema não é falta de aviso. O sistema funciona exatamente como foi desenhado: para nos manter com medo. Se a vigilância falhou e a lei chega atrasada, a conclusão é amarga: não estamos seguras porque a sociedade ainda escolhe proteger a 'natureza' do homem agressivo em vez da vida da mulher.
Queremos apenas o direito de existir sem medo e sem pedir permissão.
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